Zero-8

Pouco depois que Judith se mudou para o meu apartamento e colocou sua escova de dente ao lado da minha, nós conversávamos sobre tudo durante horas tentando preencher aquele vasto vazio que se formara entre nós desde os tempos de escola. E, embora descobríssemos que pouco, ou quase nada, tivesse acontecido conosco durante esse período, descobríamos com intensa agitação que, na verdade, não nos conhecíamos. E, às vezes, nos atropelávamos com as palavras em um angustiante esforço de passar um ao outro o que éramos por dentro e todas as experiências que tivemos desde a infância até aquele momento. E, logo em seguida, caíamos em um silêncio riscado apenas pela fumaça dos cigarros e os olhares capturados, imersos em embriagante fracasso de expor-nos com exatidão. Em uma dessas ocasiões, quando cada pequeno detalhe de sua vida se configurava para mim como o segredo de Atlântida revelado, eu a levei ao túmulo de Timothy.

Judith fez questão de comprar um buquê de flores em uma pequena loja no centro da cidade e, quando ela parecia estar encontrando dificuldades para escolher o arranjo adequado, eu me aproximei dela, segurei em sua mão e perguntei se estava tudo certo.

– Não. Não está. Sabe aqueles momentos quando você pára tudo o que está fazendo, interrompe seus pensamentos, olha para os lados e diz para si mesmo: “Ei! Eu estou feliz!”. Sabe o que eu quero dizer? Você diz: “puxa vida! Eu estou feliz, exatamente agora e exatamente nesse lugar!”. Você entende?

Seus olhos eram suplicantes, percebi que estávamos em outro daqueles instantes assustadores, quando todo o afeto que sentíamos era insuficientemente habilitado para lidar com o medo alheio e contagioso. Respondi que sabia do que ela falava. Judith continuou:

– Mas a compreensão da felicidade não é o que se pode chamar de uma dádiva, porque você começa a se preocupar no que fazer para mantê-la e não consegue achar uma resposta porque também não sabe como chegou até lá. A ansiedade vai se transformando em desespero, enquanto aquele momento feliz vai escoando por entre seus dedos e, tão repentinamente como começou, acaba.

– Permanece na memória.

– Não é a mesma coisa.

– O que realmente está acontecendo, Judith?

– Nada. Eu apenas tive essa sensação hoje de manhã e agora, olhando para todas estas flores, eu lembrei de algo que queria te contar.

– Não entendo.

– Eu tinha quinze anos quando minha avó materna morreu. Ela sofria de leucemia e ficou muito tempo internada em um hospital, sem que eu pudesse vê-la. Meus pais não queriam… não queriam que eu a visse corroída pela radioterapia e sonambulizada por drogas pesadas para aliviar a dor. Mas eu lembrava, lembrava quando ela ainda morava conosco e a doença já estava ficando terminal. O cheiro que saía do corpo dela, puta merda, não era o cheiro que deveria sair do corpo de alguém vivo. Ainda assim, era o cheiro de minha avó, alguém que eu aprendi a amar e que estava fedendo ao meu lado. E, quando ela finalmente morreu, eu fui a última a saber. Eles só me contaram o que houve um mês depois do funeral… quando eu perguntava como ela estava, era apenas uma formalidade, entenda, eu tinha certeza que a doença seria fatal. Por causa do cheiro. Mas eu perguntava como ela estava e eles me diziam que “o quadro é estável”. Eu não imaginava que pudessem mentir para mim.

– Eles queriam poupá-la.

– Não os censuro por isso. Mas gostaria de poder ter escolhido. Não me deram opções. Agora, jamais saberei como reagiria.

– Escute, Judith. Se você preferir, nós podemos voltar outro dia. Você não precisa fazer isso se não quiser.

Embora Judith tenha ficado com os olhos vermelhos e úmidos, nenhuma lágrima conseguiu escapar.

– Franz, eu não estou te contando isso para explicar que não quero ver o túmulo de Timothy. Estou contando porque nunca contei para ninguém e com você surgiu a oportunidade. E a confiança para fazer. Queria apenas que você soubesse.

Ela escolheu um buquê e beijou meu rosto, como quem agradece um favor. No carro, eu refletia no estranho impulso que move as confissões e na necessidade de conhecer pessoas novas. Judith não poderia chegar em sua costumeira roda de amigos e dizer: “Ei! Vocês sabiam da minha avó?”. Dessa forma, eu conhecia Judith de um modo como ninguém antes de mim conhecera e, como retribuição, contara a ela sobre pensamentos que nem Francine ou Timothy tinham ouvido antes. Mas, assim como eles, chegaria o momento em que saberia sobre ela tudo o que tinha que saber, ou achava que tinha que saber, e ela sentiria a mesma coisa ao meu respeito. Seriam necessários novos amigos, ainda que, mesmo se conhecermos um milhão de pessoas, não sejamos totalmente decifrados.

Na volta para casa, Judith me contou que era viciada em cocaína e precisava de dinheiro emprestado.

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