Encontrei este fragmento dobrado dentro de um antigo caderno de Geometria durante uma faxina-de-gaveta. Foi baseado em coisas que ouvi falar e pode ser que os fatos não tenham ocorrido desta exata maneira, mas também pode ser que sim. É sobre Anita e Alekssandri:
“Alekssandri rolou em seu sonho e, inconscientemente tentou puxar o lençol para junto de si. Não conseguiu e continuou a dormir. Sentada ao seu lado, desperdiçando a água que corre no chuveiro ligado, Anita Menezes estava pensando em festas passadas e na cor da meia que ele usava. Em suas mãos sonolentas ela segurava a carteira dele e, vez ou outra, a abria, para dar mais uma olhada na foto Polaroid recortada de Melanie Bates. A outra estava sorridente, fazendo pose perto de uma varanda cheia de samambaias e copos-de-leite.
Alekssandri resmungou alguma coisa que Anita não compreendeu e então se virou para o outro lado. Ela fechou a carteira, se levantou, buscou seus chinelos embaixo da cama e depois caminhou até a janela. A luz da manhã já se infiltrava por entre as cortinas e, dentro em breve, o despertador iria tocar. Sua mente vagueou em busca de um café, mas seu corpo permaneceu ali parado em frente à janela fechada, ouvindo o som da água do chuveiro. Uma brisa se insinuava pela fresta da porta e ia até os seus pés. Ela se arrepiou.
Alekssandri gemeu outra vez e pareceu que ia acordar. Mas continuou no mesmo lugar, esparramado na cama como uma barata esmagada. Ela riu ao observá-lo, um riso doce, quase maternal. E Anita sentiu vontade de despertá-lo para lhe dar um abraço cálido e depois tomar uma chuveirada morna a dois dentro do blindex apertado. Mas não fez nada daquilo. Anita foi até o armário e abriu o espelho de corpo inteiro.
Ela se examinou à meia-luz, procurando estrias ou marcas de celulite, encontrou algumas e suspirou desanimada. Mas seus seios eram cheios e firmes e ela os apalpou, a fim de sentir sua resistência. Nenhuma flacidez ali e os mamilos enrugados deviam ser bastante desejáveis ou os rapazes com seus dedos carentes não perderiam tanto tempo com eles. Melanie não tinha seios tão grandes ou tão redondos. Suas coxas eram grossas e as pernas semidepiladas eram tratadas com água oxigenada, o que lhe proporcionava uma leve penugem cor de pêssego sobre a maciez da pele. Mas precisava de algumas semanas de malhação para melhorar o contorno. Melanie não tinha coxas tão grossas assim. Seus cabelos castanho-escuros apresentavam um corte moderninho e ela sabia que nenhuma outra garota tinha um sorriso igual ao seu. Sua pele era abençoadamente morena e dava impressão de estar sempre bronzeada pela praia. Anita não era como Melanie.
Alekssandri continuava sonhando. Sonhando com Melanie.”
Não lembro o que me levou a fazer uma descrição tão poética de Anita e sua dor e também não tirei foto alguma de Judith. Os dois fatos estão relacionados, mas não decifro como.

seja o primeiro a comentar