No Future ia na frente. Os três entraram por uma porta de serviço nos fundos da mansão, aproveitando que os garçons não iam mesmo servir ninguém enquanto os Duelos prosseguissem. Matriarca seria a parceira do licantropo durante os rituais, mas os dois nem chegaram a começar. De qualquer forma, eles tinham que ser rápidos: um confronto astral não tinha hora para acabar, poderia durar horas ou minutos e havia uma possibilidade (ainda que remota) que dessem pela falta deles.
No Future sabia ser furtivo, era algo que Swantson tinha que admitir. O punk se movia pela casa sem fazer quase barulho algum, tomando todo o cuidado para não esbarrar em ninguém e se esgueirando antes de cada corredor. Todos os preconceitos dela caíram por terra: “o filho da puta é bom nisso”. Swantson sabia porque também se considerava uma especialistas, depois de tantos anos, e seguia o licantropo fazendo ainda menos ruídos. E a Matriarca vinha atrás, flutuando.
O luxo dentro da casa era ainda maior do que o jardim sugeria, com tapeçarias de extrema delicadeza dividindo as paredes com quadros de paisagens celestiais. Havia ainda peças de cerâmica que por si só já valeriam um bom dinheiro no mercado negro e incontáveis lustres de cristais iluminando salões vastos (que poderiam abrigar outra festa sem que ninguém notasse!).
No Future se guiava pelo cheiro de alguma coisa. Ele parava diante de escadarias e fungava o ar com prazer, balançava a cabeça de um lado para o outro como que sentindo a brisa e então se decidia por esse ou aquele caminho. Swantson perdeu a conta de quantas viradas eles estavam dando ou para que direção a festa ficava. E até o momento não tinham cruzado com um único criado ou segurança. Ou o licantropo estava fazendo todos aqueles desvios para evitar um contato, ou Pharad tinha um controle fraco de sua própria casa. Swantson acreditava que a resposta era uma mistura das duas coisas.
Não falavam nada. Matriarca havia explicado que o Muro de Silêncio era estático, só poderia funcionar enquanto eles estivessem parados. Mas parecia que não tinha necessidade de novas instruções: No Future seguia algum roteiro que apenas ele e ela conheciam. Swantson sentia vontade de empunhar seus revólveres a cada corredor que viravam, mas se continha. Não tinha esperanças de que seriam úteis se por acaso esbarrassem em alguém.
Quando começou a ter a impressão de que No Future na verdade estava perdido, percebeu que não estavam mais na área nobre da casa. Os corredores agora eram mais compridos, vazios de adorno ou de iluminação visível. Um brilho feérico vindo de lugar algum acentuava o deserto das paredes brancas e lisas. Em algum momento haviam cruzado o limite entre a casa física e a casa mística. Não se viam portas, tapetes ou qualquer outro diferencial. E ainda assim, o licantropo não reduziu o seu passo e nem parecia hesitante mais sobre quais direções tomar. Para Swantson, esquerda ou direita eram duas opções idênticas. O ar tinha um leve gosto metálico e havia uma pressão mais forte no interior de seu ouvido.
– No Future, estamos próximos de uma Zona Morta. Vamos ter que desviar. – disse a Matriarca em voz baixa, seu eco se espalhando pelos corredores, mesmo assim.
– O caminho é este. Eu posso sentir o cheiro mais próximo. – respondeu ele, parando a contragosto e virando-se para encará-la.
– Mas eu não posso ir por ali. Não há Mana. Contorne a área de alguma forma. Faça o seu melhor.
– E por que eu deveria fazer isto, “senhora”?
A nuca de Swantson se arrepiou diante do tom de hostilidade e seus dedos procuraram instintivamente o coldre de uma das armas. Um tiro no crânio poderia derrubar um lobisomem, sendo de prata ou não. Os olhos de No Future estavam amarelados na semiescuridão e um odor de cachorro molhado foi se alastrando perto de Swantson. Ela nunca vira uma transformação de licantropo, só ouvira histórias a respeito de pelos crescendo, caninos brotando e ossos se esticando, como nos filmes. Não estava com medo, estava até curiosa de como seria. E depois, bala na cabeça.
– Fantasmas não podem atravessar áreas sem Mana, senhor No Future. E para o sucesso de nossa empreitada, é indispensável a minha presença na Sala Proibida.
– Sua empreitada, Matriarca. Não minha, lembre-se disso.
– Ela é a porra de um Fantasma, imbecil. O que você vai fazer com ela? Latir até ela se encher? – disse Swantson, já irritada com o rumo daquela discussão.
– Eu tenho meus meios, assassina…
– Não temos tempo para tolices, senhores. No Future, ache outro caminho. A Treasures & Secrets precisa de cada um de nós para esta missão. Cada um.
No Future rosnou alguma coisa incompreensível. E tomou outra direção. Mas agora Swantson estava interessado no que ele quisera dizer com “eu tenho meus meios…”.

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