Danov teve sua chance. Renovou o Baralho e olhou com desespero uma mão quase inútil: tinha apenas duas cartas que poderiam servir para alguma coisa, duas cartas em dez. Era uma das desvantagens (ou justiças) do Duelo Astral, depender muito da sorte. É claro que, na mão de um bom Carteador, às vezes o jogo podia ser virado. Ocasionalmente, Danov conseguia resistir à sedução e utilizar cartas melhores no Descarte de Batalha. Matematicamente estava ganhando mais do que perdendo, matematicamente era mais forte, matematicamente tinha mais chances de conseguir boas cartas. Mas isto não o impediu de sofrer e cada golpe lhe doía mais o peito ao tornar a conversa impossível, incluindo os golpes que era obrigado a produzir nela.
Quando uma carta com o poder reduzido a zero conseguia vencer o poder do oponente, o dano resultante era diretamente proporcional à força interior do atacante. Os magos sabiam que esta força interior era refletida na popular força física conhecida por todos. Era esta a explicação para o fato de um Homem-Tigre magro e aparentemente subnutrido, como alguns guerrilheiros vietcongues, ser capaz de arremessar um homem a metros de distância. E neste quesito, Danov era forte como um Homem-Tigre. Cada dano seu produzido por uma carta nula era até mais forte do que aquele que seria produzido por certas cartas válidas. Duelos longos eram uma garantia de vitória para o vampiro. E aquele Duelo estava durando demais: Kira já trocara de Baralho cinco vezes e estava claro que não poderia mais renovar suas cartas, suas reservas de fadiga esgotadas. Por mais que ela manobrasse a Esfera a seu favor para restaurar a si própria, o ritmo do dano era maior. Matematicamente maior.
Como dois maratonistas eles foram até o fim, alternando vitórias e derrotas, consumindo parte de suas almas na ânsia de superar o outro. As marcas da violência se alastrando pela representação de seus corpos, tremeluzindo como velas tênues no meio de um vendaval, espalhando conceitos de sangue e desespero no meio das estrofes insubstanciais do ambiente. Ora parecia que a derrota de Kira seria inevitável, para logo em seguida ela infligir tamanho ataque contra Danov que ele era obrigado a reprimir um grito de dor.
Mas Kira cansava. Não demonstrava em seus gestos sempre seguros, seus ataques precisos e na sua sedução quase infalível. Mas estava cansando, já empregara sua última carta e não tinha mais como renovar. Ia atacar com nada, de mãos vazias, o rastro de agressão brotando direto de dentro de si e disparando com pouco vigor em direção a Danov.
E falhou. Danov resistiu com uma carta inválida e venceu, a sedução dela esbarrando em olhos anestesiados de uma mente treinada. O golpe seco que a atingiu fez seu rosto virar-se.
Tentou outra vez, sem se deixar abater. E falhou. Danov resistiu novamente com sua última carta, não caindo mais nos truques de sedução que ela executava com mecânica disposição. Novo golpe a sacudiu, ameaçando terminar tudo ali. E ela tentou outro ataque desesperado. Falhou. Danov, sem cartas também, era melhor do que ela e resistiu a tudo. A dor queimou-lhe como fogo e sua face se contorceu como um pedaço de plástico esticado até os limites. Danov ouviu a Esfera gritando junto com ela, um lamento baixo de trovões e choro. E ela atacou uma vez mais, um débil filete de fúria e devastação nasceu de sua dor e descreveu lentas parábolas no ar. Danov emitiu um jorro mais forte, em linha reta, sem se preocupar. E então Kira cometeu um erro fatal: olhou bem no fundo dos olhos de Danov e tentou uma última sedução. Encontrou somente uma vontade férrea e magnética onde ela mesma se deixou perder, esquecida de si mesma, inconsciente do perigo. Seduzida.
Kira caiu. Sem nem ver de onde viera o último golpe.

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