Volume 1 – Carta 28

O último corredor terminava em uma porta lisa, branca como o resto, com uma maçaneta de prata que já vira dias melhores e absolutamente nenhuma fechadura. Swantson tinha a impressão de que, na verdade, o corredor não terminava na porta, mas convergia para ela, em um insólito efeito de perspectiva. No Future se apoiou na porta e ali ficou, sem dizer uma palavra.

– É esta a porta, senhor No Future? – perguntou a Matriarca.

– Sim. Foi aqui que você borrifou o perfume. – o licantropo demonstrava má vontade e não tirava a mão da porta. – Está forte como o inferno…

– Não sinto nada. – falou Swantson.

– E nem poderia, senhora Swantson. Eu tive o privilégio de marcar esta porta com uma essência alquímica que só poderia ser identificada por nosso associado. É uma garantia de que, não importa para onde este aposento se mova, possamos encontrar nosso objetivo.

– A porta está protegida. Tem uma Trava Mágica aqui. – resmungou No Future. – Estou tentando abrir, mas não consigo.

– E nem poderia, senhor No Future. Tua função nessa equipe se encerra nesse minuto… a porta é minha responsabilidade agora. Afasta-te para que eu possa trabalhar.

O punk se moveu como se fosse maior do que seu corpo magro, passando por Swantson e o olhando com indisfarçado desdém. Haveria ódio também? Matriarca contornou a ambos. Swantson se perguntou porque ela preferia dessa forma se podia passar através deles na hora em que quisesse. A fantasma conjurou uma carta que Swantson não pode ver qual era e a dissolveu no ar. Estava usando magia para abrir a porta. Era algo que Swantson só podia assistir enquanto sua mente tentava recapitular uma saída daquele labirinto anormal que se escondia no interior da casa. Se tentasse fugir, seu destino mais certo era morrer de inanição no meio daquele caos.

A Matriarca praguejou alguma coisa como “macacos me mordam” e conjurou outra carta. A primeira tentativa não tivera muito sucesso. Swantson certa vez ouvira que magias que dão errado podem convocar demônios para destroçar os desastrados. Mas era uma ocorrência rara, lhe garantiram. De uma maneira ou de outra, não corria riscos. Não praticava magia e gostava das coisas do jeito que estavam. A Matriarca gastou uma terceira carta para que finalmente a maçaneta fizesse um “clique” aliviante.

Swantson estava esperando colunas góticas, incenso aceso ou harpas celestiais. Mas não toda aquela bagunça: havia dezenas de objetos literalmente espalhados pelo aposento. Vasos quebrados, vasos intactos de bronze, cristais de todas as cores e tamanhos, molduras vazias, baús de madeira, cortinas empoeiradas, tapetes enrolados, duas mesas decrépitas, alguns bancos, uma tábua ouija, livros despencados, estatuetas demoníacas, o maior televisor estragado que ele já vira, uma coruja empalhada, um manequim, sapatos velhos e todo tipo de quinquilharia de sótão. No ar, apenas o cheiro de mofo e o silêncio do corredor.

– É a porra de um quartinho de despejo… – murmurou.

– Está lá. O que eu quero está lá. – disse a Matriarca, mal conseguindo conter a excitação.

– Mas é a porra de um quartinho de despejo! – gritou Swantson. – É a porra do quarto errado!

– Faço-o entrar, Matriarca! – rosnou No Future, seu hálito animalesco próximo demais das narinas de Swantson.

– Senhora Swantson, não permita que teus olhos e tuas opiniões previamente concebidas a iludam a respeito da natureza deste aposento. É um quarto de despejo, sem sombra de dúvidas. Mas um quarto de despejo de artefatos de valor oculto. Objetos encantados que já conheceram seus dias de glória e agora jazem esquecidos, abandonados a seu próprio destino. Objetos mundanos encantados com poderosas magias de outrora. O conhecimento e o poder estão estocados aqui, senhores.

– E por que você não entra então, pega o que quer e cai fora?

– Observa atentamente, senhora Swantson e entenderás o porquê da impossibilidade tanto minha quanto do nosso sócio No Future de entrarmos neste recinto.

Swantson olhou mais uma vez, já sentindo-se ridícula por não ter percebido algo que aqueles tão-sapientes-membros-do-Mundo-Ausente sabiam. Estava farta de ser menosprezada e farta daqueles inúteis joguinhos de adivinhação. Olhou mais uma vez e só viu o mesmo lixo de sempre, distribuído sem nenhum critério por cima de prateleiras empoeiradas, mesas carcomidas e o chão riscado com… Riscado com algum tipo de padrão. Linhas retas indo de um lado ao outro, formando um desenho embaixo de tudo.

– É um pentagrama. Tem um pentagrama desenhado no chão.

– Desenhado, não. Gravado no chão com magia e propósito.

– OK. Eu desisto. Pentagramas servem para quê?

– Impedem que forças sobrenaturais cruzem seus limites. Isto inclui eu e o senhor No Future.

– E não inclui a mim porque eu sou imune à Magia…

– Não inclui a senhora porque tu és essencialmente humana. Não há nada mágico existente em ti. Sua imunidade à Magia é apenas parcial, não te iludas. Mas é plena para Pentagramas.

– O Baralho é mágico.

– A Fonte está acima de Pentagramas, senhora Swantson. Acredita em minhas palavras: este desenho no chão não permitirá nossa entrada, mas em nada te afetas. – seu tom de voz era quase maternal e aquilo tudo foi subindo o nível de irritação dela.

– E é por isto que eu estou aqui? Para entrar neste quartinho? Você jogou a S.W.A.T. em cima de mim, me trouxe através do Oceano Atlântico, contou uma história da carochinha sobre meus pais só para entrar nesta bosta de quartinho?!

– Está melhor que eu, assassina – resmungou No Future. – Eu estou aqui só para cheirar a porra do caminho. Entra logo e cala essa boca! Eu quero a minha parte da jogada e quero agora!

– Certo, certo… e o que eu levo, lobisomem?! O que eu levo para entrar onde vocês dois não podem?

– Paz de espírito, senhora Swantson. Acho que já conversamos sobre isso. Simplesmente não tens alternativa.

Swantson olhou para os dois, um de cada vez, tentando achar uma forma de sair por cima. Não gostava de ser manipulada. E não gostava de ter que dar um golpe em Pharad, não tinha nada contra o sujeito, muito pelo contrário. Viera preparada para tudo, menos para servir de entregadora. Concluiu que aquela história toda teria um retorno, não naquele momento nas profundezas da mansão. Mas prometeu a si mesma que ferraria aqueles dois ainda aquela noite e que se foda se talvez precisasse morrer outra vez.

– OK. Cadê a lista de pedidos? – ela viu a Matriarca sorrindo, mas No Future permaneceu com os mesmos olhos faiscantes e lábios crispados.

– O que eu quero não será captado agora, senhora Swantson. Mas quero que olhes com bastante cuidado para tua futura aquisição.

– Não vai ser pego agora? – a situação estava se complicando a cada minuto e tinha zero interesse em gastar mais tempo com aqueles dois.

– Não poderias sair da casa com ela, senhora Swantson. Não sem chamar atenção excessiva para ti. – a Matriarca apontou para o maior objeto do quarto.

– A televisão? A televisão velha?!

– Sim. É um artefato…

– … “de extremo poder”?

– Sim. De extremo poder.

– É uma tevê velha e quebrada…

De fato era. Grande e desajeitada como eram fabricadas no tempo da válvula, provavelmente nem era colorida, com duas imensas antenas saindo da carcaça de madeira corroída por décadas de estocagem. A tela estava rachada e faltavam vários botões no painel frontal. Devia pesar uns vinte quilos. Talvez mais. E escondia um “extremo poder”.

– Europeus filhos da puta… e você, No Future, vai querer o quê? Uma máquina de costura enferrujada ou o velho ferro de passar roupa a carvão da vovó?

– Não brinque com o que não conhece, princesa. Você simplesmente não sabe de porra nenhuma, então presta muita atenção no que eu quero. – ele mesmo parecia estar puxando da memória as palavras certas para dizer. No Future ficou olhando para o teto, enquanto passava a língua nos lábios.

– Tem dez segundos para falar ou juro que vou fazer você mesmo ir lá dentro buscar.

– OK… Existem regras. O objeto não pode ser tocado. Você vai ter que levar um lenço para pegá-lo. Você pode fazer a merda que quiser lá dentro, mas não toque no objeto sem o lenço, OK? É uma pirâmide de cobre com uns dez centímetros de altura, com umas coisas escritas nela.

– De extremo poder, é claro.

– Não é da sua conta. Pegue agora e minha parte neste trabalho termina. Você nunca mais vai ver minha cara e eu nunca mais vou ver a sua.

– Não foi o combinado, senhor No Future. O combinado seria que tu virias em nossa segunda visita, para guiar a equipe. – lembrou a Matriarca, uma leve fúria na voz.

– Mas é verdade. Eu havia me esquecido, madame.

– Não esqueças novamente, Ás de Paus.

A menção daquele nome provocou alguma alteração no licantropo. Swantson teve a impressão de vê-lo encolhendo e tremendo na pouca claridade que havia. Mas nada aconteceu. Ele apenas calou-se e baixou os olhos. Swantson não teve certeza se era uma retração provocada pelo medo ou a retração natural de um animal ganhando impulso para atacar.

Para espanto de todos, Swantson cruzou a porta aberta sem aviso. Não sentiu nenhuma diferença em si mesma ou no ar ao seu redor. Mas seus “sócios” olhavam para ela como se ela estivesse pintado de ouro.

Deu as costas para os dois e se aproximou do televisor velho. Examinou-o com mais cuidado, procurando algum indício de sua natureza mágica. Até onde podia ver era apenas um pedaço obsoleto de tecnologia que nunca mais funcionaria. Na base havia o nome do fabricante escrito em letras douradas como era costume naquela época, fosse lá qual época fosse. “Vivendi”. Um produto italiano? Sem data de fabricação, sem número de lote, sem nota fiscal. Nada mais. Linhas abruptas, layout diferente dos aparelhos mais modernos. Um estorvo de trinta quilos que ela teria que carregar nas costas para fora da casa no momento em que a Matriarca julgasse conveniente. Tentou imaginar como conseguiriam sair sem chamar a atenção. “Com licença, senhores, estamos levando a tevê pro conserto”.

Tocou o aparelho com os dedos nus e não sentiu nada. Nenhuma observação sobre lenços. Esperava um arrepio, uma descarga elétrica. Uma armadilha até. Alguma coisa que quebrasse aquele alarme dentro de sua cabeça gritando para tomar cuidado, alguma coisa que a fizesse sacar as armas e esvaziar os tambores em carne e osso. Uma desculpa para iniciar a dança da morte ali mesmo, naquele minuto. Pensou em ficar na Sala Proibida até os guardas aparecerem e levarem seus sócios embora. Estava segura ali, se tanto o lobisomem quanto a fantasma não podiam entrar. Só tinha que esperar que Pharad desse pela ausência deles e começasse as buscas.

Largou o televisor e continuou a andar entre os “artefatos”. Não queria ficar sentada aguardando os outros se ferrarem. Queria algo pior. Muito pior. Até lá precisava sorrir e ser uma boa menina. Não era o que os médicos tinham insistido tanto lá atrás. Era o que o mundo parecia esperar dela, de psiquiatras a deuses chacais do Egito antigo. O trabalho de sempre.

Achou a pirâmide entre uma esfera de cristal lisa e um cubo repleto de inscrições enigmáticas no alto de uma prateleira. Se não estivesse em Sutterville Dream, Swantson poderia até imaginar que tudo não passava de souvenirs hippies, do tipo vendido em barracas perto da praia na Califórnia. Mas era melhor seguir as regras do jogo. Tinha um lenço no bolso do capote que normalmente usaria para apagar digitais e outras pistas. Envolveu a pirâmide nele e a ergueu.

Era surpreendentemente pesada. Tinha o brilho de cobre envelhecido e era levemente oxidada na base. Mas pesava como se fosse feita de um único bloco de chumbo. “Mais do que chumbo”, ela pensou. O peso não era natural para um objeto daquele tamanho. E, ela podia sentir através do pano, o próprio tamanho não parecia certo. Não era fixo. A maldita pirâmide estava mudando de tamanho na sua mão, ora crescendo ligeiramente, ora encolhendo. Era sutil, nada que a fizesse largar o artefato e sair correndo porta afora, mas não era o tipo de coisa que você gostaria de ficar segurando por muito tempo. Dentro do pano, ela nem tinha certeza se era mesmo uma pirâmide.

Lembrou de No Future e o viu parado na porta, com os olhos injetados de sangue olhando fixamente para o lenço. Suas pupilas estavam amareladas e seu peito inchava no ritmo da pirâmide. Seus punhos fechados estendiam os tendões dos músculos de forma violenta.

Seu bom-senso lhe avisava que o encontro do licantropo com a pirâmide seria uma combinação nefasta, o tipo de evento ruim que infestava os subterrâneos do Mundo Ausente com histórias de dor e insanidade, o material com que os pesadelos e as lendas urbanas eram criados. A criatura não usaria aquele objeto para enfeitar a mesa de centro em sua sala de estar, não o trocaria por dinheiro em um beco obscuro de Hong Kong ou daria de presente para uma prostituta de Nova York. Havia planos naquele olhar faminto. Um longo planejamento que culminava entre as mãos de Swantson. De posse do artefato, No Future não precisaria mais dela, nem da Matriarca. E poderia muito bem despachar os dois ali mesmo.

Swantson sorriu. Chegara a hora.

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