Foi Melanie Bates quem me ensinou a dançar músicas lentas. Até então, eu preferia o ritmo mais frenético da “new wave” e somente mais tarde eu descobriria o fluxo de adrenalina do punk rock e as nuanças poéticas do gótico. Mas, nas festas da Classe de 92, o que mandava era a dance music e a “new wave”. E, nas horas em que o cansaço batia ou quando a ansiedade do coração alcançava o insuportável, quem reinava era Tracy Chapman e A-HA (ainda não tinham inventado Kenny G e Bryan Adams acreditava estar a serviço do rock n’ roll). Para esses momentos, Melanie me ensinou a Magia do dois-pra-cá-dois-pra-lá e jamais esquecerei.
Na primeira vez que dancei com Melanie, depois de ter me apaixonado por ela, estava tocando “Don’t Cry” (Guns n’ Roses). Naquela mesma festa, eu, Barnhard, Melanie e uma amiga dela dançamos todos os quatro abraçados e levemente embriagados ao som de “Imagine” (de vocês bem quem).
Em outra festa, Melanie dançou na minha frente completamente bêbada, agitando os cabelos de um lado para o outro. Eu estava sentado, entediado, e uma fonte de luz forte vinha por trás de Melanie, transformando-a numa mancha escura ondulante e eu queria ter uma câmera para registrar aquilo. Nessa mesma festa, Tim e eu tomamos o poder do aparelho de som e tocamos “Temple of Love” (Sisters of Mercy), para desespero dos partidários de dance music e alegria de Melanie que estava dançando qualquer coisa mesmo.
Foi enquanto estávamos dançando “Easy” (versão do Faith no More) que contei a Melanie que estava apaixonado. Era a terceira música que dançávamos juntos naquela festa e cada uma das anteriores que terminava roubava um pedaço da minha coragem e tornava difícil o dois-pra-cá-dois-pra-lá. Meu discurso ensaiado (e eu sempre tinha um discurso ensaiado) falhou na quarta palavra e eu falei de improviso, esquecendo completamente dos outros casais, da música, da hora, do passado, de tudo. Melanie enrijeceu em meus braços e olhou para mim surpresa. Não dançamos mais naquela noite.
Depois disso não havia mais músicas lentas nas festas da Classe de 92. Hoje não há mais a Classe de 92.
Ela ainda amava Alekssandri. E eu fui um amigo que ultrapassou os limites da pista de dança.

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