Acendi o primeiro cigarro da noite enquanto Francine entrava no carro e, embora tivesse sentido o toque suave de sua boca em meu rosto, não houve calor naquele contato e a chama do isqueiro era a única coisa que aquecia. Como eu, Francine estava vestindo uma roupa virgem, mas seus pensamentos estavam carregados de tensão e sua aura vazava para todos os lados como carga eletrostática. Ela usava uma saia longa de tecido e bordados hindus, junto com uma blusa branca apertada que desenhava o contorno dos seios com precisão. Estava sem maquiagem e trazia como único adorno um pequenino brinco esférico dourado na orelha esquerda. Nada de anéis, pulseiras, cordões ou colares, “nada que possa provocar interferência magnética”, disse Eugene. Tinha os lábios crispados e rugas no canto dos olhos. Estávamos com dezenove anos, prestes a tentar tomar o poder divino para nossas mãos e, ainda que meu olhar no espelho retrovisor contivesse traços de descrença, o sentimento dominante era de temerosa arrogância.
As indicações de Raymond eram claras e conseguimos achar o prédio sem dificuldades. Ray e Eugene já estavam nos esperando na portaria. O primeiro vestia um conjunto barato de camisa social branca e calça idem, com um par de sapatos bem engraxados e uma gravata do Mandrake, quebrando o efeito anterior com uma estúpida tentativa de fazer humor. Com aquela roupa, o cabelo bem escovado e sóbrio, Raymond passaria por um videomaker careta do tipo que produz peças publicitárias de margarina. Eugene era um rock star, de jaqueta negra sem mangas, camisa promocional da última turnê dos Cramps e calça de vinil negro. Eu não consegui acreditar que Eugene estivesse pensando em queimar tudo aquilo depois do ritual. E foi a primeira vez que eu o vi usando os óculos Ray Ban que eu lhe presenteara, claro sinal de que qualquer desinteresse anterior estava sendo liquidado naquele momento. Eugene, finalmente, me aceitou no grupo.
Helen chegou logo em seguida, apertada dentro de um vestido estilo tubinho cor de creme que deixava bem claro que ela precisava de uma dieta para recuperar a forma da juventude, mas aquilo era assunto para segunda-feira. Mais tarde, ela me confessaria que escolhera aquela roupa esquecida no armário justamente para queimar. Ela também prendera os longos cabelos castanhos em coque e trazia a tiracolo uma bolsa surrada de seus tempos de faculdade, onde provavelmente estavam as velas. Tinha uma ligeira camada de sombra debaixo dos olhos que poderia ser confundida com falta de sono.
Timothy foi o último a chegar. Parecia um fantasma errante das noites de Sodoma. Vestia a camisa azul semidesbotada da escola sobre o tronco magro e uma calça Levi’s levemente puída nos joelhos. Calçava um par de tênis cuja cor original exigiria um conhecimento muito profundo de pigmentação industrial para ser identificada; era um borrão cinzento. Sua imagem diante da pulsante luz fluorescente era muito mais alta e esguia do que ele realmente era e o cigarro largado em seus lábios à espera de um fósforo tornava-o mais próximo de um personagem das histórias em quadrinhos. Ele trazia uma sacola de supermercado que exalava um forte odor de sândalo e Ruffles. Sorria brandamente.
Raymond interfonou para o 609 e disse que já estávamos lá. Um rápido zumbido seguido por um estalo e a porta de vidro se abriu. Francine segurou minha mão, não com medo, como eu imaginei quando me virei para encara-la, mas com carinho. Sua boca formou um silencioso “eu te amo” e, antes que eu pudesse retribuir, Eugene nos chamou com impaciência. Apenas apertei a mão dela e tentei imaginar se um pequeno anel de ouro iria realmente mudar alguma coisa entre nós.
No elevador, ninguém disse nada.
A porta já estava aberta quando chegamos. A sala era iluminada somente por três abajures, que lançavam uma luz modesta em pequenos círculos. Apesar dos muitos cantos escondidos nas sombras, era fácil perceber que o apartamento era decorado de maneira moderada e com muito bom gosto. Francine reconheceu cada uma das reproduções dos grandes mestres do abstracionismo penduradas nas paredes. A sala abria para um balcão de bar mais adiante à esquerda e, à direita, havia um corredor escuro que terminava em uma fresta de luz escapando de uma porta fechada. O lugar todo tinha um ácido odor de formol misturado com purificadores de ar de várias fragrâncias e, ainda assim, não era o bastante para disfarçar o cheiro de carne necrosada.
Raymond disse que Thomas estava no quarto no fim do corredor, absolutamente sedado. Eugene sussurrou “merda”. Ray também falou que, durante o ritual, Howard permaneceria trancado no outro quarto, não importasse o que ouvisse ou o que acontecesse. Helen disse que estava captando vibrações negativas e que o ambiente era desarmônico. “É claro que é”, replicou Tim, fechando a porta e passando o trinco.
Eu olhei para o corredor sem luz e não tive dúvidas de que nós conseguiríamos. Além daquela porta, estava Thomas, amigo de Raymond de seus tempos de escola. Paciente terminal de AIDS. Seu namorado, Howard, pedira a Ray para que nós intercedêssemos. O Círculo Interno.
Magia.

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