Alekssandri e Melanie sempre foram incapazes de lidar com a felicidade de um modo ordenado. Alternavam momentos de beatífica harmonia com cada vez mais constantes tempestades de provocações mútuas e crises de ciúmes. Como Harry e Sally, com a diferença que nenhum dos dois era fã de “Casablanca”. Ela gostava de “Ghost” e ele adorava “Aliens”, entendeu? Na verdade, o casal perfeito transitava nos limites da patologia comportamental, mas estavam(os) ofuscados pelo brilho dourado da paixão utópica, esse ouro de tolos…
Melanie o amava. Intensamente. E ainda o amou por um longo, longo tempo até… quando? Até que momento em sua vida Melanie amou Alekssandri e o que a fez finalmente parar de desejar e sonhar? Teria ela parado realmente? Que imagem triste Melanie agora olhando pela janela, sufocando suas lembranças e tentando compreender por que motivo os ventos mudam e, mesmo que ela me telefonasse e me perguntasse o que foi que deu errado (“eu quero saber”, disse Raymond), eu permaneceria calado e recordando apenas os seus olhos verdes. Não as lágrimas, mas apenas os seus olhos verdes. Aqueles olhos para sempre ofuscados pela visão do ouro… Será que existe uma data específica para o fim de uma esperança? Em que dia da semana eu deixei de acreditar nas palavras de Lim? Quando Judith entrará para o meu álbum de fotos, uma última colagem de uma mesma cena? Já não é mais uma questão de “se”, mas de “quando”.
Alekssandri a amava. Intensamente. Tão intensamente que quase enlouqueceu diante de possibilidade de algo dar errado. De tanto acreditar que fracassaria com ela, acabou cometendo um erro após o outro. Paranóia e complexo de inferioridade movidos a um combustível mortífero por si só conhecido como amor. A-M-O-R, L-O-V-E, uma palavrinha simples que já destruiu noites de sono de cada um dos cinco bilhões de fodidos que caminham neste mundo. Para Alekssandri, o primeiro beijo em Melanie foi o topo da parábola e seu envolvimento com Anita a metade inequívoca de uma curva descendente. Tudo isso dosado com farta quantidade de sentimento de culpa a lhe envenenar o cérebro, pois, como eu disse, ele a amava.
Um dia acabou. Não por causa de Anita. Melanie o perdoou por tudo até o último momento, o que apenas contribuiu para aumentar o desprezo e a inadequação que Alekssandri sentia por si mesmo. E quando você se despreza, você se torna desprezível. Não acabou com uma grande briga, uma cena altamente cinematográfica com trocas de acusações, explosões de ódio e Phil Collins ao fundo cantando “Take a Look at Me Now (Against All Odds)”, um gancho narrativo para uma eventual reconciliação e “agora está tudo bem”. Não. Era assim que nós queríamos que as coisas terminassem, para salvaguardar nossos próprios estereótipos. Nós que olhávamos para eles e víamos a Meg Ryan e Billy Cristal, quando eles sempre foram Melanie e Alekssandri. E, como Melanie e Alekssandri, eles se separaram.
Nessa época eu começava a perceber a espiral de autodestruição na qual eu estava envolvido com relação a Lim, embora a compreensão não me servisse para nada. Barnhard já havia pulado fora do barco e Noburu não renovara a matricula no colégio e desaparecia para nunca mais voltar. E Timothy conhecia Francine por acaso em uma tarde morna de março no Neverland.

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