Judith está vomitando no banheiro masculino de um McDonald’s e eu tento parar de tremer enquanto repasso em minhas lembranças o modo exato de agir numa situação dessas. Ela faz um som horrível, inumano, quando volta a engasgar e eu só consigo me lembrar de Brigitte, uma cadelinha Fox que pertencia ao meu tio e morreu sufocada no próprio sangue depois que ingeriu veneno para ratos. Eu quero gritar para que ela pare, gritar por socorro e depois desaparecer, qualquer coisa que me afaste do barulho molhado, mas não seria uma atitude digna e eu continuo pensando em algo útil para fazer. Mas, então, um senhor de seus cinqüenta anos, que se parece como meu vizinho do lado, entra no banheiro disposto a aliviar suas impulsões físicas, para dizer o mínimo, e começa a gritar comigo e eu não consigo ouvir o que ele diz, não consigo reagir. Apenas olho para Judith recurvada sobre o vaso sanitário e respirando violentamente entre uma golfada e outra. O homem se aproxima dela, seu rosto está transtornado, ele não pára de gritar e, cada vez que ele grita, espalha saliva para todos os lados, um cão raivoso defendendo o território, e eu penso que ele vai morder Judith a qualquer momento, uma imagem ridícula, e eu grito como ele sobre ela ser minha namorada e alguém mais entra no banheiro.
Este fragmento termina com Judith sentada na calçada, abraçando os próprios joelhos, segurando o choro e me pedindo um cigarro. O segurança do McDonald’s nos olha com arrogância através do vidro, algumas senhoras cochicham entre goles de Coca-Cola e, agora que eu voltei a pensar com clareza, fico imaginando como seria fácil me vingar de todos eles com dois ou três encantamentos um pouco mais complexos. É um pensamento mesquinho e eu o afasto, mas Judith não quer entrar no carro, então eu não dou nenhum cigarro a ela.

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