Quando eu fui ao apartamento de Judith pela primeira vez, eu já estava pensando se voltaria a ligar para Melanie ou não. Eu usava roupas amarrotadas porque meu ferro de passar há muito tinha se quebrado e eu não tinha nem dom nem dinheiro para consertar. Até aquele momento, isso não tinha a menor importância: eu decidira gastar os últimos dias até o próximo cheque apenas revendo filmes antigos gravados e esquecidos no armário da sala. Judith me telefonou durante o confronto final entre Luke Skywalker e seu pai, Darth Vader.
E, no espelho do hall do prédio dela, eu pude perceber que meu estado chegava muito próximo ao de um paciente terminal de envelhecimento natural. Meu sorriso tinha manchas de nicotina, logo seria melhor que eu não sorrisse. Sempre achei que pastas de dente especiais para fumantes tinham gosto de merda e eram mais uma forma da indústria do fumo lucrar com meu vício. Meses a fio sacaneando o relógio despertador e vivendo como um vampiro finalmente estavam cobrando um preço sobre minha pele: eu poderia dizer que morria de fora para dentro, a cada minuto e sem sentir.
Judith abriu a porta e tive vontade de sorrir. Era como se o espelho continuasse na minha frente. Então eu sorri, ela também e concluí que não partilhávamos da mesma opinião sobre dentifrícios.
O apartamento não era dela. Era de um sujeito com quem tinha morado antes, um ex-professor de Antropologia Primitiva desquitado que curtia marijuana. Judith me contou que ele tinha arrumado as malas algumas semanas atrás e fugido da cidade. Foi isto o que ela disse: “ele fugiu para nunca mais voltar”. Ele detestava móveis; exceto a mesa da cozinha, tudo o que havia por ali era almofadas. Nenhuma televisão. Nenhum livro (“vendi uma pilha enorme de livros acadêmicos, na semana passada, para um livreiro lá do Centro. Estava ficando cansada de tropeçar neles no meio da noite”). Judith guardava suas roupas dentro de uma mala inacreditavelmente larga e as dobrava de tal forma que não amarrotavam. Só havia duas janelas: a do banheiro, que abria para o vão de circulação de ar do prédio, e a janela da sala, que abria para um outdoor eletrônico da General Motors.
Ela me contou que teria me ligado antes, mas perdera o guardanapo em que tinha anotado meu número. “Felizmente, eu ainda tinha o telefone de Barnhard em uma agenda antiga e ele tinha o seu”, ela disse. Judith me apresentou aos dois maiores tesouros do lugar: uma pipoqueira elétrica e uma vitrola. Tentou fazer com que eu conhecesse a discografia completa do The Who, mas noite foi curta.
Então, era cinco e alguma coisa da manhã, o milho da pipoca havia acabado, o meu estômago estava em frangalhos e nós estávamos rindo sem saber do quê, esparramados sobre as almofadas e com os dedos sujos de manteiga. Lembramos de tudo: os professores que tivemos, amores e dissabores, os métodos e esquemas para colar nas provas, os apelidos, pessoas que vieram-ficaram-e-depois-sumiram. Contei-lhe que já não esperava mais vê-la de novo e ela me disse que tinha medo de nunca reencontrar ninguém e como se sentira solitária na faculdade, a ponto de abandonar tudo e passar seis meses de sua vida dormindo em cinemas e atravessando madrugadas em casa escrevendo poesias. “É isso o que estou fazendo agora”, eu disse. Nós nos olhamos por um longo tempo, em silêncio, depois da última faixa de “Quadrophenia”, mas a química não ocorreu.
Ela se levantou e foi para o quarto, sem dizer nada. Eu fiquei ali, deitado nas almofadas, percebendo espantado que não tinha acendido um único cigarro a noite inteira e que não contara para ela sobre a morte de Timothy.
Quando Judith voltou, meu coração travou por uma fração de segundo e eu perdi uma batida, algo que não iria recuperar jamais. Meus lábios secaram, ansiosos por tabaco e/ou um beijo suave. Judith usava meias três-quartos brancas e uma sapatilha preta e vestia uma saia rodada azul na altura dos joelhos. E estava usando a blusa do colégio, com os dois botões superiores descuidadamente abertos revelando um sutiã rendado branco. Ela limpara a maquiagem do rosto. Estava linda.

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