Zero-86

Raymond era sempre o primeiro a chegar e se embebedava antes de todo mundo. Era a sua concepção de vanguarda. Nós já o encontrávamos filosofando sobre a cultura pop ocidental e sua relação com o esoterismo orienta, misturando as idéias com tequila e cerveja e batendo bem. “Sóbrio, ele é um chato”, me confessou Francine em uma daquelas noites.

Helen tinha talento. De verdade. Fazia poemas capazes de esquentar nossos corpos, mesmo quando os casacos já não adiantavam mais nada contra o inverno. Ela nunca deixava a depressão nos abraçar. Por ser a mais velha de todo o grupo, nós nos acostumamos a chamá-la de mãe, embora a diferença de idade não chegasse a cinco anos. Ela ria de nossas bebedeiras, de uma maneira tão gostosa e envolvente que eu ficava imaginando como era possível alguém mais velho do que eu rir como se fosse mais novo.

Eugene perdera a namorada em um acidente de moto. Ainda falava dela no tempo presente, o que me constrangia muito, mas parecia não afetar os outros componentes da mesa. Felizmente, para mim, ele quase não falava. Ficava sentado na dele, apenas escutando o que dizíamos e balançando a cabeça positivamente de vez em quando. Não bebia nada, nem água mineral. À medida que sua rota para a desgraça foi se tornando mais nítida, seus hábitos também foram se modificando: seu organismo começou a depender de refrigerante e, em seguida, de café. Mas não posso entender o significado da mudança. Suas poesias eram boas, mas apenas Francine conseguia entender os seus rascunhos.

Timothy.

Francine não me cativou muito da primeira vez que a vi. Seu ar de segura superioridade formava uma barreira natural a qualquer aproximação inicial. Quando Timothy nos apresentou, ela não tentou disfarçar sua relutância entre ficar calada e dizer “prazer em conhecê-lo, Franz” e, logo em seguida, colocou uma nuvem de fumaça de cigarro entre nós. Precisei de três semanas para gostar das coisas que ela escrevia e, no final das contas, fiquei com a firme convicção que Francine estava lendo Dorothy Parker demais.

Eu lhes dei este nome: Círculo Interno.

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