Zero-4

11:21 P.M. Estou chorando tudo aquilo que não chorei na lanchonete ao lado de Lim e Eugene. Do meu lado direito fica a carteira onde Timothy Darkdream se sentava e escrevia poemas sombrios sobre a natureza humana durante as aulas de Química, do meu lado esquerdo fica o lugar antes ocupado por Alekssandri Pavlovitch (sétimo lugar entre as vendas de Caterpillar do estado, no mês de Outubro), na sua frente ficava sentada Melanie Bates (que levou todos nós certa vez para um final de semana em sua casa nas montanhas, onde nós jantávamos pipocas e almoçávamos cachorros-quentes, sem nenhum problema nutricional ou velhos por perto), atrás de mim era o lugar de Lim Iakeda (que ficava sussurrando no meu ouvido qualquer coisa que lhe viesse à cabeça e fingia se esquecer quando eu me virava para falar com ela), atrás de Tim e ao lado de Lim ficava sentado Barnhard Rémy (que, certa vez, apareceu na festa de aniversário de Melanie usando calças jeans rasgadas, no melhor estilo “destroy”, mas foi mal compreendido). Ao redor sentavam Carlo Visconti, Anita Menezes, Cecília Ribeiro, Noburu Ohiro, Judith Metzger e uma multidão de outros nomes, esperanças sepultadas, “The Wall” aplicado na vida real, desejando mudar o mundo em nome de bandeiras já arriadas. Uma legião de arquitetos, obstetras, professores, plantonistas, bons maridos, boas esposas, cidadãos respeitados, pessoas frustradas. Não deixando de citar os caixas de banco, motoristas de táxi, vendedores de software pirata, recepcionistas, auxiliares do assessor do secretário, limpando o chão do sucesso com seus diplomas inúteis e suas línguas, esperando a Sexta-Feira para se irmanar com seus ex-colegas de terno e gravata no copo de um bar.

Uma vida boa”, disse Eugene.

“Eu só quero alguém para encher meu sofá”, disse Helen Grady.

“Como chamas antes do temporal”, disse Francine.

“Eu quero saber o que deu errado conosco”, disse Raymond Willis.

“E eles me farão eterno”, disse Timothy Darkdream.

Será um de nós”, ofereceu Eugene.

Qualquer alternativa ao esquema normal da existência parece estar cercada de loucura e morte e eu me pergunto qual delas irei escolher esta noite e se Tim encontrou algum tipo de resposta em seu mergulho rumo à Magia. Tudo o que eu queria neste momento era poder ver as respostas nas folhas do chá, nos astros do céu, nas entranhas de um pombo, na superfície de um sonho, no interior do cristal. Queria que as respostas fossem passadas num envelope debaixo da minha porta, injetadas em minha veia ou ministradas como aulas na Faculdade (Encarando o Mundo I e II e Aprofundamento na Vida Cotidiana). Preciso que Deus desça de seu trono dourado e me revele que realmente há um Monte Parnaso mítico do outro lado me esperando se eu for um cordeirinho obediente. Ou então, que o Príncipe das Trevas se erga de seu fosso pútrido e me ofereça uma vida feliz longe das pequenas humilhações em troca de minha alma. Mas, tudo o que tenho são lembranças, um punhal, um bilhete e a cidade pulsando na janela.

É o medo do fim, no final das contas. E mais do que isso: o medo de não ter aproveitado o pouco de tempo que nos é oferecido. “Não temos mais o tempo que passou”, diz a música. Eu poderia escrever outra vida somente utilizando as oportunidades perdidas no meio do caminho. Mas não faço isso; fico apenas sentado chorando na escuridão. Paralisado pelo medo, acreditando por um longo tempo que, se eu não me mover, o medo irá embora.

Não funciona.

Então, me levanto da cadeira e começo a fazer a única coisa que ainda não fiz: trazer Darkdream ante minha presença reunindo o pouco conhecimento arcano que não se apagou de minha mente. Mas não será através de uma mandala rebuscada traçada pacientemente no banheiro de um bar e repleta de símbolos de proteção ao seu redor, como fez Raymond. Nada de veículos sofisticados; eu afasto as carteiras no centro da sala, dou uma olhada casual para o alinhamento das estrelas através da janela e, usando a adaga de Eugene, traço cinco linhas retas no chão, formando um pentagrama. Vamos lá, Tim, você me colocou nessa e agora vai ter que me tirar: vai aparecer aqui vestindo o uniforme do colégio dizendo “Franz-meu-velho, que porra de invocação malfeita é esta?!” e vai me responder sete perguntas, que não formulei ainda, mas nas quais eu vou pensar, com certeza. Pego algumas palavras de Poder dentro do Livro de Francine e as grito para o pentagrama.

Não funciona. Aparece, filho-da-puta! Você é feliz, agora?

A solução borbulha em minha mente e eu creio que um pouco de sangue do invocador irá ajudar no encanto. Não me surpreendo com esse pensamento, ele estava lá escondido desde que eu coloquei os apetrechos na mochila, como um “alien” incubado aguardando a hora certa para vir à tona, rompendo ossos, músculos e vasos sanguíneos no processo. Tenho uma vaga recordação do sangue de Eugene fluindo e hesito um pouco. Então, eu passo a lâmina do punhal na palma da mão. Sinto uma ardência terrível quando a carne se abre e logo o sangue está escorrendo pelos meus dedos e pingando na borda do pentagrama. Um gemido escapa de meus lábios e eu jogo o punhal num canto da sala. Merda! Essa porra queima como fogo e o sangue não pára de cair.

Não funciona. O que eu estou fazendo?

Uma vertigem súbita me joga sentado no chão, com ela vem um pouco de sanidade e eu me pergunto de onde Timothy arranjou forças para fazer quatro cortes desses nos pulsos, o pedaço de vidro provavelmente escorregando em sua mão e a visão ficando turva. Respiro profundamente, aspirando este sopro de lucidez como se fosse o mais puro dos oxigênios.

Também já posso ver as manchetes nos jornais locais falando de “vandalismo e Magia Negra em escola de subúrbio”. Senso de humor, seja bem-vindo.

Faltam velas nesse pentagrama.

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