Zero-55

A chuva não parava. Nem uma única brecha naquele muro d’água que se erguia lá fora e ninguém tinha ânimo para abrir guarda-chuvas. O Neverland parecia maior naquele dia perdido de 91 e o rádio tocava um módulo inteiro de U2. Discutíamos sobre nossas frustrações, Timothy, Alekssandri e eu. Barnhard juntou-se a nós depois de fazer sua dublagem de “Sunday Bloody Sunday” (na época, ele era a cara do Bono Vox):

Timothy: A-dê-dã-nhaá: a-b-c-d-e-f-g-h-i-j-l-m-n-o-p. Pê!!

Alekssandri: Pais. Para eles, todos os problemas da adolescência têm causas simples. “Você está usando drogas, meu filho?” ou “Você não devia andar com estas pessoas”. Não há espaço para qualquer outro motivo mais complexo.

Eu: Pelos na cara. Gostaria de ter uma barba malfeita. Assim as pessoas poderiam saber quando eu estou deprimido.

Timothy: Vista-se de preto. Seja punk ou dark ou headbanger. Mas seja autêntico ou vai perder o seu tempo. (pausa) Professores e toda a merda inútil que eles empurram para a gente.

Eu: A-dê-dã-nhaá: a-b-c-d-e-f. Éfe!!

Alekssandri: Felicidade. Quando você a tem, o medo de perder é insuportável. Se manter no topo é muito mais difícil do que chegar até lá. Como é possível aproveitar alguma coisa boa se você fica tanto tempo lutando apenas para mantê-la?

Eu: alguma coisa errada entre você e Melanie?

Alekssandri: Eu não quero perdê-la, Franz. Eu a amo. Mas não posso controlar o mundo…

Timothy: Mas ela também está apaixonada. O que pode dar errado?

Alekssandri: Eu não sei. Simplesmente não quero perdê-la. (pausa) Éfe!!

Timothy: Falsidade. Porque as pessoas dizem “eu te amo” quando querem dizer o contrário? Porque alguém que te apunhala em um dia chega sorrindo em outro? E não estou falando de arrependimento, não. Estou falando de máscaras. Dos rostos vazios de verniz e esmalte que as pessoas colocam quando vêm falar contigo e que, se você não vigiar a si mesmo, acabará acreditando e sorrindo de volta.

Eu: Eu amo uma garota que não me ama. Mas não posso mentir que a odeio apenas porque ela também está mentindo para mim. Então, eu sorrio de volta.

Timothy: Não, Franz. Você quer acreditar que ela não está mentindo. Sua esperança, sua vida, se baseia nesse dogma.

Eu: Fé cega.

Timothy: Sim. Ela não é sua Nêmesis, Franz. Você é sua própria Nêmesis. Você tem visto “Sessão da Tarde” demais se acha que esta história terá um final feliz. Está começando a influenciar os seus textos. Eles estão ficando muito pessimistas.

Alekssandri: Todo pessimista é um otimista enrustido.

Eu: Vão se ferrar, caras!! Eu só preciso de tempo. Lim é uma garota difícil, ela tem seus problemas.

Timothy: Quanto tempo, Franz? Um ano, dois anos, quatro anos?

Eu: Não me venha com essa, Tim. Eu não sou burro!

Timothy: Ela acha você divertido. Nada mais.

Eu: Você está enganado.

Alekssandri: Eu ouvi por aí que ela e Noburu…

Eu (cortando): Foda-se!! (pausa) Pensei que estivéssemos discutindo o problema de cada um.

Timothy: E estamos. Mas você não quer ouvir a verdade sobre seus problemas.

Eu: Os meus?! E quais são os seus, Timothy Darkdream? Até agora você só falou dos Professores e da Falsidade. Abstrações patéticas. Qual é realmente o seu problema?

Timothy (irritado): Quer mesmo saber? Eu vou lhe dizer: Lim está apaixonada por mim!! Ela mesma me disse isso, no telefone, semana passada. Mas eu não quero sequer pensar em ter que lidar com isso.

Eu: Você está inventando.

Timothy: Franz, meu amigo, você não pode imaginar o quanto eu desejo que as coisas fossem diferentes. Eu não quero magoar nem a você e nem a ela.

Alekssandri: Parou de chover lá fora…

Eu: Eu não acredito.

Barnhard: A-dê-dã-nhaá: a-b-c-d-e-f-g-h-i…

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