Sodoma. Natal de mil novecentos e noventa e três. Primeira e última comemoração do Círculo Interno. Não houve neve esse ano, mas um frio crescente ia tomando conta de nós à medida que nos aproximávamos do Sandman. Timothy foi o primeiro a sentir. Ele simplesmente disse: “está ficando frio” e não sorriu mais pelo resto da noite. Não da mesma forma que sorria, pelo menos, e isso nos afetou mais do que pudemos admitir. Francine envolveu minha cintura com o braço e naquele momento até Raymond pôde perceber o que vinha acontecendo entre mim e ela.
Havia uma árvore de Natal em cima do bar e uma guirlanda de flores na porta de cada banheiro. Nada mais. Em todo resto, parecia uma noite como qualquer outra no Sandman, onde as horas se congelavam no momento perfeito e a magia era tão densa na atmosfera que a fumaça do cigarro flutuava mais lenta. E os drinques vinham com as doses certas. Mas havia uma ânsia profunda no olhar das pessoas, uma preocupação semineurótica de se divertir a qualquer custo como se não existisse o dia seguinte, apenas o dia de Natal. E essa ânsia de Paz e Harmonia perturbava levemente a fina camada de sociabilidade que separa o Homem do Abismo Depressivo, sufocando sua espontaneidade.
– É a Culpa Cristã – disse Francine, acendendo um cigarro por si própria e recusando meu isqueiro.
– O quê? – eu perguntei, examinando um menu que já conhecia.
– Vocês não acham que dois mil anos celebrando um nascimento não é mais do que suficiente para aliviar nossa mente da responsabilidade?
– Pergunte a Hitler. – respondeu Tim.
– Espere um minuto… espere um minuto aí! Por favor, pessoal, em respeito ao nosso amigo Franz Richter aqui, vamos evitar esse assunto delicado! – falou Raymond.
– Vai se foder, Ray – eu disse, bem humorado ainda, mas lembrando de Papai Richter sentado no escuro total na sala do sobrado, com a ponta do cigarro brilhando nas trevas e uma voz embargada de Orloff me perguntando aonde eu ia.
– Será que vou ter que lembrar a vocês que dia é hoje? Franz, peça desculpas a Ray. – Helen, sempre apartando nossas brigas, polindo nossas arestas.
– Desculpe-me, Ray. Eu te amo.
– Eu também te amo, cara.
– O Natal não é lindo? – provocou Francine.
– Babaca. – eu disse, rindo, para Raymond.
– Nazista. – ele retrucou.
– Parece que há algumas divergências por aqui. O que nós estamos comemorando afinal? “Natal” não estava na Lista da Merda?
Lembro da voz de Timothy. Estava sombria. Talvez ele já soubesse.
– “Natal” não está na Lista da Merda. Temos “foto com Papai Noel” e “aquela música do John Lennon”. Ambas opiniões de Francine. – revelou Helen.
– Algum trauma de infância, querida? – eu perguntei.
– Você não é meu analista, Franz-querido. Mamãe já paga alguém para fazer isso para mim. Agora vou dizer pra vocês porque estamos aqui.
– Silêncio, todos. – pediu Timothy.
– Tem alguém aqui nessa mesa que acredita em Cristo? – ela perguntou.
Realmente tínhamos feito silêncio para ouvir Francine falar. Toda aquela conversa paralela, que existe quando um grupo de pessoas que se gostam se encontra justamente para bater papo, simplesmente desapareceu. E, quando Francine fez aquela pergunta, foi o som mais claro que ouvi e pude sentir os olhos do barman e dos outros freqüentadores deslizando para o nosso grupo.
– Não. – respondeu Timothy.
Helen segurou meu joelho por debaixo da mesa, apertando com muita força e penetrando as unhas através do tecido até minha carne.
– Eu não acredito. – ela disse. Mentira e queria que alguém soubesse. Largou minha perna.
– Nem eu. – respondi.
– Franz é “W.A.S.P.”, ele acredita sim. – brincou Raymond.
– Eu já disse que te amo, babaca, não me faça repetir. – ameacei.
– Isso tudo é uma grande besteira, Francine. Aonde você quer chegar?
Foi a primeira vez, naquela noite, que Eugene falava.
– O que eu quero dizer é que eu acredito. Embora essa não seja a opinião dominante aqui entre nós. Mas não é o nascimento de Jesus que está em jogo. São nossas vidas. E o que fazemos delas. Explico melhor: o fato de estarmos essa noite no Sandman, nos ofendendo uns aos outros, e não em nossas casas comendo rabanadas, significa muito. É a nossa forma de dizer: foda-se o panetone, os falsos amigos, os parentes distantes e aquela música do John Lennon. A gente veio para cá, como sempre fazemos, para beber, para rir e para criticar o texto alheio. Nada de presentes. Nada de amigo oculto. Essa é a nossa magia. Ninguém é obrigado a sorrir hoje e se algum de vocês quiser acertar um murro na cara do outro, esteja à vontade. Mas faça com muita paz e harmonia.
– Hoje tu não escapas, Ray. – eu disse.
– Obrigado, Francine – falou Eugene.
– Um brinde a nós, então – bradou Helen – À liberdade!
– Ao Círculo Interno! – eu exclamei.
– Esquece esse nome, Franz-meu-velho. Dorothy Parker não lhe cai bem – brincou Tim.
Descontando-se o embaraço inicial e levando em conta que “poetas de vanguarda não cultuam festas capitalistas”, estávamos nos saindo muito bem e qualquer um que olhasse para nossa mesa não desconfiaria da imensa sombra negra que pairava naquele momento. Éramos eternos, um glorioso passado de recordações a nossas costas comprimidos em dezenove anos de infinita liberdade, e estávamos começando a gostar da faculdade, que se estendia a nossa frente. Euforia coletiva e a certeza de que nem Deus, Diabo, Pai ou Mãe poderia nos dizer o que fazer. Francine estava falando a verdade: a Magia estava conosco.
Helen estava lendo seu último trabalho, mais parnasiano a cada estrofe. Ela era a favorita de Timothy, uma ponte etérea para um lugar de música, luzes e faces enrubescidas. Helen tinha o dom inato de conduzir quem a ouvia para um mundo de nuvens e segurá-lo lá em cima por um tempo indefinido. “Ela traduz sonhos, Franz”.
Francine estava abraçada com Timothy, encostando sua cabeça no ombro dele e jogando sua cabeleira negra por cima da blusa branca que ele vestia. E, por baixo da mesa, Francine acariciava minhas pernas com o pé descalço, tirando toda a minha concentração e inserindo lascívia no paraíso declamado por Helen. Raymond olhava para o resto de uísque no fundo de seu copo, talvez lendo um novo presságio como dizia ser capaz de fazer ou simplesmente focalizando as imagens que escapavam dos lábios de Mamãe Helen. E Eugene, agora de óculos escuros, ouvia com atenção. Timothy dividia um cigarro com Francine.
A garçonete (Lisa? Roxanne?) nos entregou uma garrafa de vinho tinto “com os cumprimentos do cavalheiro da mesa Número Dois”.
Raymond ensaiou um sorriso, mas parou a meio caminho. Olhamos todos a procura do nosso benfeitor oculto.
Ele tinha uma idade indeterminada entre trinta e cinqüenta anos e usava os cabelos pretos num corte muito curto, quase militar. Sua aparência era tão destoante quanto a de um huno numa convenção de dentistas. Usava couro dos pés à cabeça, desde as botas de motoqueiro incrivelmente polidas, passando pela calça justa eu-toco-no-Iron-Maiden até o casaco que ostentava zíperes brilhantes como se fossem medalhas. Estava sentado sozinho com uma garrafa de tequila semivazia e sorria para nós um sorriso perfeito de publicidade. Seus olhos estavam encobertos pelas lentes escuras de um Vuarnet.
Francine: Parece um pedófilo…
Helen: Quem é esse cara?
Eu: Jack Nicholson! “Born to be wiiiillld…”
Raymond: Há algo de errado…
Timothy: Eu sei quem ele é. É um dos…
Eugene: Um velho amigo de meus tempos de motocicleta.
Um arrepio subiu pela minha espinha ao ouvir o comentário de Eugene. De repente, foi como se eu estivesse sentado com pessoas estranhas. Francine emudeceu. Depois do acidente com Alice, Eugene nunca mais falara a respeito de motocicletas e se recusava violentamente a citar o assunto. Tê-lo calado ao nosso lado nos fazia esquecer quem realmente começara a lidar com Magia em nosso grupo, quem trazia livros em Latim para Helen decifrar (“ela traduz sonhos, Franz”) e quem conseguira a vaga para Raymond na Faculdade de Economia. Sua voz era uma corrente elétrica inesperada, rompendo nossos laços com o mundo dourado de Helen.
“Com licença”, ele se levantou e foi até a mesa Número Dois. Ficamos estáticos vendo os dois se cumprimentarem e Eugene se sentando, tão à vontade como jamais estivera entre nós e um misto de ciúme e alívio esmagou-me contra a cadeira e, por mais que eu rejeitasse intimamente a prática de encantamentos, meus sentidos gritavam maus augúrios. Permanecemos sentados, ora bebendo, ora fumando, mas desta vez sem nada de significativo para dizer. Senti o medo do vazio que empurra as pessoas para a rotina e desejei retornar à infância, passar o Natal em família e ganhar muitos presentes sem questionar o significado de tudo. Timothy também se levantou e foi até a outra mesa. O homem cumprimentou-o com um grande aperto de mão e ofereceu-lhe uma cadeira. Em pouco tempo os três riam e conversavam. Helen recolheu os seus textos, deu um beijo em mim, Ray e Francine e saiu do Sandman. Raymond chorou um pouco e pediu uma garrafa de cidra (a garrafa de vinho que nos foi oferecida permaneceu em cima da mesa, sem ser tocada). Francine e eu nos despedimos de Ray e fomos até a mesa Número Dois.
– Franz e eu estamos indo agora. Está ficando tarde e eu prometi aos meus pais que passaria em casa para comer um pedaço de peru.
Ela olhou para Tim com insegurança, uma criança tímida pedindo permissão para ir embora. A proximidade do motoqueiro esvaziava minha alma. Ele era repelente de alguma forma e opressor: eu não podia dizer nada diante dele, entregando minha sorte toda nas mãos de Francine. Timothy olhava para nós com suprema condescendência:
– E seu discurso todo, Francine? Ele se esgota depois das doze badaladas?
– Por favor, Tim. Sem cenas…
– Você gosta de John Lennon, não é? Diga a verdade.
– Eu não posso ficar. Até mais, Tim. Adeus, Eugene. Foi muito bom. E obrigado, senhor…
– Pode me chamar de Elvis.
Número Dois libertou uma gargalhada de seu peito que silenciou todas as vozes dentro do Sandman. Era um riso compulsivo que subia um crescendo e morria subitamente, repleto de sarcasmo e autoconfiança e totalmente isento de alegria. A mão de Francine gelou na minha e nós fomos embora sem olhar para trás.
Um ano depois, Francine não estaria mais na cidade, Helen se casaria, Raymond seria expulso da Faculdade e eu iria para a cama com Lim Iakeda. Todos nós passaríamos a evitar Eugene. E Timothy cortaria os próprios pulsos com caco de vidro.

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