Quando eu estava apaixonado por Lim, eu imaginava que ela poderia ser como Melanie. Quando eu estava apaixonado por Melanie, eu temia que ela pudesse ser como Lim. Cansado de tentar viver meu ideal-romântico-adolescente ao lado de Lim, resolvi ir direto à fonte: a garota mais cobiçada da escola, a princesa de olhos verdes (“tão publicitária, tadinha”, disse Francine), a Meg Ryan do colegial, senhorita Melanie Bates. Afinal de contas, após tantas humilhações aos pés de alguém como Lim, eu merecia ser rejeitado por alguém melhor, correto? E quando eu desisti de tentar me apaixonar por Melanie, eu me apaixonei por Melanie.
E ela foi uma das melhores amigas que eu já tive. Solidária, ela sabia como eu me sentia atado a Lim porque também continuava atada a Alekssandri. Nossa amizade, pelo meu ponto de vista, era um sonho gótico: onde nós estivéssemos, estávamos felizes, mas permanentemente acompanhados pelos fantasmas de antigos sentimentos. Melanie, tão somente por sorrir, afastava de minha mente lembranças que eu desejava tanto esquecer. Minha ousadia era supor que meu sorriso teria o mesmo efeito sobre ela. Mas qualquer decisão que eu pudesse tomar era continuamente adiada para não interromper o simples prazer de ficar ao seu lado. Eu estava totalmente iludido.
Naquela tarde de primavera, durante uma sessão de fotos, eu comparava seus olhos com os de Lim. Melanie ganhava. Comparava seus lábios com os de Lim. Melanie ganhava (embora, triste sina!, eu jamais possa testemunhar sobre seu sabor). Comparava seus cabelos com os de Lim e Melanie ganhava. Em sorriso, postura, corpo e charme, Melanie ganhava em tudo. Mas não era sadio que eu estivesse comparando. Nem um pouco.
– Está triste, Franz. É Lim?
– Sim. – eu respondi. Tentei me concentrar no trabalho, captar a luz mortiça que vinha da claraboia da casa onde ela morava, ajustar o foco, regular a velocidade e click. Melanie era muito vaidosa e eu estava ansioso para guardar um registro que fosse fiel ao objeto de minha paixão.
– Você precisa de um novo amor, Franz. Sair por aí, conhecer pessoas. O que você acha de Francine?
A pergunta me divertiu mais do que me surpreendeu. Melanie nunca desconfiou do que eu sentia até ser tarde demais. Eu começava a aprender como esconder meus pensamentos (obrigado, Lim!!).
– Francine é só uma amiga. Além do mais, ela e Timothy estão juntos.
– Eu não sabia.
O filme acabou e por um instante eu quis contar tudo. Coloquei calmamente o equipamento em cima da mesa e fixei meus olhos nos dela. Coração bombeando adrenalina e pele ardendo. Ela sorriu para mi e eu vi o que poderia perder se desse um passo errado. Eu perderia sua companhia, que era tão preciosa, e fatalmente cairia de volta na espiral sombria de Lim. Algo que eu não permitiria acontecer. Então, soltei o fôlego, contei uma piada boba e nós rimos juntos. A tarde feliz estava salva.
Mas o relógio continuava seu movimento alheio aos seres humanos e chegou o dia em que eu acreditei que podia e coloquei as cartas na mesa.
Até hoje, não revelei aquele filme.

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