– Sexta-feira passada eu estava tão doido que eu queria morrer. Acordei no sábado em uma cama de motel, coberto de vômito e com a impressão de ter transado com alguém.
Timothy me disse isso a cento e vinte quilômetros por hora cruzando a cidade na madrugada de uma segunda-feira. Naquele momento, com a falta de cafeína e/ou nicotina cobrando do meu raciocínio, não pude entender se, quando Tim dizia “tão doido”, estava se referindo ao álcool ou a algo pior.
– Falando em transar, Franz-meu-velho, você e Francine têm dormido juntos, não é?
Ele estava ao volante, falando tão rápido quanto dirigia e sem saber também para onde íamos. Resolvi ser evasivo:
– Não sei do que você…
– Tudo bem. Tudo bem mesmo, cara. Eu te tirei a Lim. Você vai me tirar Francine. É justo.
– Você está bêbado!
– E você não?
Os sinais de trânsito ficavam verdes para nós. As luzes dos postes derretiam como se afetadas pelo efeito-warp (“Dobra Espacial número seis, navegador”) e o rosto de Tim era uma mancha pulsante de néon e trevas. Na imensidão de Sodoma, nós éramos um vaga-lume etílico correndo desesperadamente em direção ao oblívio.
Quando a nuvem de desilusão cobriu minha vista e eu pude perceber que já completara vinte anos e que Timothy e eu estávamos nos distanciando, eu gritei para acelerar. O ronco do motor encobriu minha voz, mas eu falei assim mesmo.
– Eu amo Francine.
– E ela te ama, Franz-meu-velho. Mas e daí? Em cinco anos você vai estar atrás de uma mesa de consultório ouvindo as queixas de dez milhões de frustrados incestuosos, receitando Prozac às toneladas e engordando a conta bancária de gente como nossos avós. Então, você vai chegar no seu apartamento duplex, dar um beijo nas crianças, fazer um sexozinho com Francine e depois assistir no jornal de fim de noite o presidente botando no rabo de todo mundo e a AIDS levando mais um astro de rock pro necrotério. Nos finais de semana vai fazer um churrasco com os amigos ou levar os filhos para ver “Aladdin” no cinema.
– E você, Timothy? “Forever Young”, por acaso?^
– É isso aí. Eu tenho amigos, cara. E eles me farão eterno.
– Besteira.
Mas ele não estava falando de nós. Estava falando de Magia. E de vampiros.

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