Volume 1 – Carta 1

Josephine Swantson não estava habituada a surpresas. Levava uma vida tranquila na medida do possível, sem sustos ou aquilo que ela chamava de superstições. Às vezes chegava a pensar que podia até gostar da rotina. Não havia dúvidas de que era bem diferente das responsabilidades do escritório de contabilidade (e alguns diriam que era muito mais emocionante), mas a alternativa para isto seria muito pior. Uma surpresa atrás da outra como tinha acontecido cinco anos atrás. Nenhuma delas boa. Todas fatais.

Naquele dia ela teria três surpresas. E novamente não iria gostar de nenhuma.

Estava tudo normal, de acordo com a agenda. Outra cidadezinha de merda no interior dos Estados Unidos onde ela possuía uma caixa postal permanente, alugada com uma da mais de dez identidades falsas que carregava no carro. “Um dia eles vão entrar em contato contigo outra vez, como eu fiz, e você saberá mais”, dissera O´Brien enquanto os dedos rijos de Swantson apertavam-lhe a garganta compulsivamente. Péssima lembrança. E ainda havia a esperança de encontrar Deborah, ou o que sobrara dela. Alguns investigadores especializados no assunto cobravam uma pequena fortuna mensal para mandar relatórios de progresso (ou da falta de) para estas caixas postais. E Swantson também assinava a Time. Mesmo não saindo mais nenhuma notícia sobre ela nos últimos quatro anos.

Então estava tudo normal. O atendente dos correios sorriu mais do que seria considerado profissional e Swantson se esforçava para parecer invisível. Deborah dizia que ela tinha um jeito de cativar as pessoas sem fazer muito esforço e era verdade. O problema é que as pessoas ficavam com uma irritante tendência de lembrar de seu rosto depois que ela ia embora e, para o seu atual estilo de vida, este era um dom que preferiria não ter. Ela pegou a Time, duas cartas de investigadores de outros estados. E um envelope pardo, cheio de selos coloridos, vindo da Inglaterra.

Swantson não conhecia nenhum inglês e jamais pisara no Velho Mundo. Seu bom-senso deu um grito no fundo de seu crânio: “Jogue esta merda fora, não abra, não pode ser boa coisa!”. Remetente: Secrets & Treasures Inc. O endereço também era de uma caixa postal, em Londres. E estava endereçada a ela mesmo, não havia dúvida.

Esperou para abrir o envelope pardo no quarto de hotel. Abriu as cartas dos detetives no caminho, enquanto percorreu a curta distância entre o pulgueiro onde deixara suas malas e a agência dos Correios. Passou os olhos rapidamente pela enorme quantidade de desculpas escritas nas cartas, sobre a falta de pistas, sobre a volubilidade deste tipo de gente, sobre noites mal dormidas em vigílias inúteis e parou na conta. As contas eram a única coisa de concreta que aquelas cartas produziam.

O Sol estava forte e Swantson suava. Tinha esperado um clima mais ameno quanto mais se dirigisse para o Norte do país. A fronteira canadense não estava a mais de seis horas de carro agora. Mas era o maldito verão de 1982 e ela suava debaixo do capote. Onde o coldre de couro da Beretta encostava na axila.

Folheou a Time sem vontade, sua mente inquieta se voltando a cada virada de página até o envelope inglês. Quanto mais evitava pensar no assunto, mais acreditava que deveria jogar a carta na primeira lixeira, pegar o carro e cruzar a fronteira. “Você foi localizada!”. Não parecia coisa do Panopticum. Estava esperando helicópteros negros ou homens de terno. E não uma carta. Impessoal demais. “Fui localizada, de alguma forma.” No íntimo, sabia que o envelope não estava em mais nenhuma outra caixa postal. Que não existiam cópias desta carta circulando pelo país e quem quer que estivesse querendo falar com ela sabia exatamente onde ela estaria.

A primeira coisa que fez ao chegar no quarto foi checar as armas. A pistola estava com a munição completa e perfeitamente lubrificada. O rifle Remington calibre 12, escondido debaixo da cama, ainda estava lá. Totalmente municiado também. E limpo. Swantson olhou pela janela, em busca de furgões ou atividade suspeita. Viu o seu carro do outro lado da rua, pneus revisados, três quartos de tanque cheio e munição extra escondida no fundo falso do banco traseiro. “Seria muito simples”, ela pensou. Ainda estava na dúvida se cumpria sua obrigação semanal deste ou do outro lado da fronteira. “O mais provável é que será no Canadá. Nunca matei um canadense, mas não deve fazer a menor diferença”.

Abriu o envelope:

“Prezada Senhora Swantson


O segredo de sua origem nos pertence. Temos informações plenas e comprovadas sobre seus verdadeiros pais. Estas informações fazem parte do acervo de conhecimento da Secrets & Treasures e, como tal, podem ser utilizadas de acordo com nossa conveniência. Se deseja negociar a guarda destes dados, compareça ao encontro com um de nossos representantes, no evento citado em anexo.

Atenciosamente,

Secrets & Treasures Inc.”

Era a mais estranha carta de chantagem que ela já recebera. Como tudo em sua vida nos últimos cinco anos. Em anexo havia um convite, com letras douradas e símbolos de baralho.

Cerimônia de Iniciação

O Concílio dos Cinco tem a honra de convidar: Sra. Josephine Swantson para a Cerimônia de Iniciação de três novos membros de nossa Sociedade:

  • Nicholas Smith
  • Ferric
  • Kira

Contamos com vossa presença para prestigiar este momento tão sublime e partilhar das glórias da Fonte.

No verso tinha um endereço, em Manchester, data e hora. Dali a quatro dias. Mas quem eram aquelas pessoas? Ingleses. Gente exótica que dava festas sobrenaturais. Os símbolos de Paus, Copas, Dama e Espadas não estavam naquele convite como enfeites casuais. Swantson pensou em quanto tempo fazia desde que ela manifestara seu Baralho pela última vez. Umas duas semanas. Era fascinante, não havia dúvidas. Mas também um tanto quanto inútil para o dia-a-dia.

Uma festa de Carteadores. Gente do tipo que ela estava evitando nos últimos meses. Mas gente que poderia ajudá-la a encontrar Deborah melhor que aqueles charlatões e/ou incompetentes que ela vinha contratando.

“Verdadeiros pais”. Bem, a mãe verdadeira dele era uma professora na Carolina do Sul, descendente de noruegueses e que dava aulas de Inglês para meninas e ajudava na Festa da Framboesa (ou seria Amora?) todo ano. Um pequeno escândalo que ela tenha ficado grávida de um desconhecido, mas não havia dúvida de que ela era filho dela. A semelhança física (pelo menos) era gritante. O mesmo nariz e o mesmo sorriso tímido, era o que diziam. Seu pai segundo constava tinha sido um bêbado que invadira o apartamento. Nada muito lisonjeiro, mas também não era motivo de vergonha profunda. Tanto foi que sua mãe acabou se casando e constituindo família. Joseph nunca fora excluída por causa disso.

“Então estou sendo chantageada por uma empresa que sabe que minha mãe é uma professora e meu pai é um bebum e ameaça contar para todo mundo”. Surpreendentemente ridículo, se não fosse sério.

“Canadá, agora!”. Um convite para uma festa em uma mansão na Inglaterra. “Seis horas até a fronteira”. Um chantagista burro e filho-da-puta pedindo para morrer. “Carteadores são difíceis de matar, caia fora!”. Mudar de continente podia ser uma boa pedida por um tempo.

Swantson pensou sobre como a maré podia mudar de uma hora para outra e nossos planos não valiam mais do que um Ás de Ouros. Decidiu pagar para ver.

Cinco minutos depois o esquadrão da SWAT já havia cercado o prédio.

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