Não havia barulhos pelo castelo. Longos corredores e salas vazias, desprovidos de sons. Nada de crianças brincando de correr pelos labirintos de portas, passagens em arco e escadarias. Nada de serviçais atarefados se movimentando de um lado ao outro, trocando cortinas, encerando o chão ou levando recados. Nada. “Nem mesmo o vento sopra no Castelo Kravmore, no momento em que o Velho acorda”, pensou Chinoko. Tudo se calava e se escondia, nada florescia.
A mesa da sala de jantar já estava pronta. Os pratos servidos com a costumeira abundância, sua variedade indo da cada vez mais rara carne de cervo, caçado nos bosques ao redor, a frutas exóticas colhidas em um outro mundo e pagas com moedas de ouro puro. E com o costumeiro descaso o Velho em nada tocou. Chinoko se acomodou em seu lugar, ao lado de Alekssandri, e estudou com interesse um suculento pedaço de frango fumegante não muito distante na mesa quilométrica.
O patriarca sentou-se à cabeceira. Seus cabelos eram longos e totalmente grisalhos, amarrados com uma tira de couro que o acompanhava desde tempos de guerra e sofrimento. A barba, finamente aparada, guardavam poucos fios negros. Apesar dos séculos que pesavam sobre seus ombros, ele sentou-se altivo e ainda possuía uma presença impactante. Podia-se dizer que ele enchia a sala com seus quase dois metros de altura e músculos bem delineados nos braços anciões. Ele parecia ser mais alto que o neto, mesmo não sendo. Seus profundos olhos azuis fitavam uma outra época e ele não demonstrava desagravo pelo atraso de Chinoko. Seu comportamento tem se tornado imprevisível nos últimos anos, sua fome por alimentos e bebidas descendo em uma espiral contínua. Chinoko já percebera: o Velho nada mais comera desde o Natal passado. Trazia ao lado da cadeira uma espada antiga, um montante, cuidadosamente afiada, maior do que muitas pessoas e mais pesada do que aparentava. Ele poderia cortar uma das colunas da sala com ela, e de um único golpe, se fosse necessário. Agora, para onde ele ia, o montante o acompanhava. Em suas mãos enluvadas, anéis de vários metais preciosos, com símbolos e runas da Casa. Alguns foram presentes. Outros foram conquistas. E num dia bom ele não se importaria de contar suas histórias para algum visitante interessado. Sua indumentária poderia ser considerada elegante, dois séculos atrás. Agora, exalava um ligeiro odor de mofo e sangue seco. Mesmo sendo lavada cuidadosamente pelos empregados todas as semanas. Era algo que impregnara. O patriarca Kravmore estava vivo quando os ingleses invadiram a Escócia. Em 1982, ele ficava pouco à vontade.
Alekssandri McAllister não esperou mais por seu avô para começar a comer. Eram nove horas da noite e ele almoçava depois de um longo e inquieto sono. De todos os netos do patriarca, Alekssandri era aquele que guardava mais semelhanças físicas. Seus olhos, seu porte vistoso, seu equilíbrio. Chinoko sabia também o quanto o patriarca o apreciava, provavelmente seu neto favorito e o único com residência fixa no castelo (apesar das andanças constantes). Ela acreditava que este afeto, raro na família, surgiria mesmo se não houvesse as tão famosas circunstâncias envolvendo seu nascimento. E o sentimento era mútuo. Alekssandri amava e respeitava seu avô. E é por isso que ele agora estava receoso de começar o assunto.
Chinoko comeu em silêncio, esperando que Alekssandri dissesse alguma coisa. “Às vezes, ele ainda me lembra um pequeno filhote, indeciso, inseguro”, ela pensou. Alekssandri já tinha 31 anos e não precisava mais dos cuidados de sua babá chinesa, agora amiga e membro não-oficial da família. Mas para um Vampiro, ele ainda era jovem. Jovem demais para ser considerado pelos outros mais do que um aventureiro, um escritor nas horas vagas e, principalmente, alguém com um segredo desagradável no passado. Pela sua impetuosidade e força, ele poderia ter sido aproveitado como um valoroso guerreiro nos numerosos confrontos entre as Casas em épocas distantes. Mas seu comportamento contestador e sua intolerável tendência a vencer obstáculos quebrando regras não-escritas o tornavam um espinho no pé do clã. Sua predisposição para atrair problemas, ou, nas palavras dos silenciosos detratores, “sua paixão pela aventura”, já o colocara em posições desconfortáveis para uma Casa que buscava atravessar a modernidade sem fazer barulho. Ele e “sua babá-monstro” eram um estorvo para os Kravmore. Exceto para o avô. Para o patriarca, Alekssandri era uma chance de corrigir os erros cometidos com Duncan, seu filho. E o Velho era os Kravmore, enquanto vivesse.
Alekssandri terminou seu almoço e encarou o avô. Neste momento ele percebeu que o patriarca permanecera durante todo o almoço observando o neto. Sem hesitar, ele falou do pesadelo. Sempre igual. Aquele sonho que o atormentava desde a infância. O sonho com os Ursos e os Assassinos. “Fronteira da Finlândia novamente”, pensou Chinoko, “cada um de nós carrega sua cicatriz; eu tenho a minha; Alekssandri, seus pesadelos; e o Velho…”. Sem interrupções, ele contou o sonho mais uma vez, com os mesmos detalhes de anos: o sopro da neve, o brilho da prata, o jorro de sangue. E os Assassinos. E a Espada. Sem demonstrar emoções, o patriarca escutou. Chinoko fechou os olhos quando Alekssandri terminou, antes dele emendar no assunto principal:
– Recebi uma carta de Eldritch, de Berlim.
Eldritch, um Juliot desgarrado, era ex-integrante do que os tabloides chamaram de “London Boys” (embora Eldritch fosse nascido e criado na Alemanha, tivesse um sotaque indisfarçável, e não fosse mais um “boy” a pelo menos meio século). Hanz Eldritch, Alekssandri McAllister (nascido na China, criado na Escócia), o Homem sem Rosto (origem ignorada) e Jack O’ Lantern (irlandês convicto). Os “London Boys”. A maior parte do tempo em que Alekssandri esteve fora da propriedade Kravmore, ele passou com eles, em algum canto entre Amsterdã e a dimensão mais próxima resolvendo problemas de todo tipo, enfrentando horrores que a maioria das pessoas preferia achar que sequer existiam. Desafiaram a morte mais de uma dúzia de vezes. E conseguiram igual quantidade de inimigos permanentes, aliados, bebedeiras, algumas canções de rock compostas por Eldritch, um livro de não-ficção de McAllister vendido como ficção, namoradas em cidades diferentes e, no final de tudo, a separação decorrente da maturidade.
Uma carta de Eldritch significava problemas.
– Vai haver uma festa de Iniciação. Na propriedade de Pharad. Do Concílio. Haverá uma vampira iniciada. O nome dela é Kira. Eldritch foi convidado. Mas cedeu o convite para mim. Ele andou investigando. O senhor sabe. Ele tem muitos contatos. Juliot. Ele conhece minha história. A história de meu pai. Kira aparentemente veio do Oriente também. Ela pode ser minha irmã. Outra filha de meu pai.
– Impossível. Eu saberia.
A resposta do patriarca surpreendeu Chinoko. Não pelo que ele disse, mas pelo fato de sua voz se propagar pelo salão como uma onda de negativas.
– Isto é um não?
– Eu saberia no instante em que ela pisasse na ilha.
– Mas, se meu pai está vivo, talvez…
– Eu não sei se Duncan está vivo.
Ela reconheceu o silêncio que se seguiu. Já o presenciara antes, incontáveis vezes, nesta sala ou em outras. Um silêncio combinado, uma mistura de assuntos delicados e planejamentos adiantados. Nenhuma palavra mais é trocada entre os vampiros, mas o consenso prevalecia. O patriarca não acreditava em uma palavra vinda de Hanz Eldritch. Da mesma forma sabia que não poderia impedir o neto de descobrir por seus próprios meios suas próprias verdades. Alekssandri não era mais um “London Boy”. E para que ele se tornasse um Kravmore teria que trilhar seu próprio destino.
O Velho se levantou, sem anúncios, e parecia mais cansado, mais velho, do que quando se sentara. Ele contornou a longa mesa e se aproximou do neto com passos calculados. Passou por trás de Chinoko, que se encolheu quase imperceptivelmente. E se posicionou atrás de Alekssandri. Sem se virar, ele escutou as palavras finais do avô:
– Mande lembranças minhas a Pharad. E leve aquela maldita espada com você.
O Velho se afastou em direção aos seus aposentos, passando por um castelo envolto no silêncio e no temor.

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