A grama aos seus pés é verdejante e macia. O céu azul está límpido de nuvens e uma mesa de pedras foi colocada sobre o solo. Rodeando há um círculo de carrancas metálicas de olhar duro. Elas representam o mesmo ser, na mesma posição e com a face austera.
Nicholas Smith parecia mais jovem sentado ali em frente dele. Mas Dylan não estava ligando: sabia também que sua manifestação não correspondia à realidade. Ao lutar nas Esferas Espirituais ele mantinha a mesma aparência e até as mesmas roupas do momento em que morrera. Era parte de sua maldição. Muitas eram as causas das mudanças dos duelistas, a maior parte motivada por ego ou estrelismo, o controle de sua própria persona era o único campo garantido para todos. Dylan olhava para Nicholas e via um jovem recruta de olhar tenso, vestindo uniforme do exército e com a cruz vermelha costurada na manga da blusa. Nicholas olhava para Dylan e via um jovem autor teatral cheio de sonhos, vestido como um fugitivo dos psicodélicos anos 60. Dylan detestava tudo aquilo, mas nunca conseguira ter o controle que para os outros era tão fácil. Devia mais essa a Kerevski.
Nenhum dos dois tinha a menor vontade de descartar.
– Estamos na Esfera Terra. As carrancas metálicas representam Enlil, um Deus Babilônico da Terra. – Nicholas deu a dica, uma demonstração de cortesia.
– Já havia percebido, mas obrigado assim mesmo.
– Foi treinado para essa Esfera?
– Sim. Fui treinado para todas. Sem querer me gabar.
– Eu, não. Especializei-me em uma apenas: Morte.
– Conheço muito bem Morte. Muito bem.
– E eu conheço muito bem você. – disse Nicholas fitando-o nos olhos.
– E eu pensei que ninguém se lembrava dos diretores…
– Pharad me contou sua história. Morto pelos Ases Negros em Londres, um laico aprisionado por meses na Esfera da Morte sem entender o que aconteceu. Resgatado por um benfeitor hindu, treinado no Carteado. Interessante que tenha retomado sua vida depois do… incidente.
– O show não pode parar, não é o que dizem? – Dylan fez um Descarte de Batalha, sem aviso, um Oito de Paus, potencializado pela influência da Esfera sobre o naipe.
– Você não consegue ocultar o que sente para aqueles que têm os olhos certos – Nicholas esboçou uma defesa, sem sucesso, e foi atingido por uma onda de devastação. Seu corpo astral foi sacudido pela dor, mas seu tom de voz não se alterou um único momento. Sabia que a dor era ilusória e passageira no Duelo.
– O que exatamente eu não consigo ocultar?
– Rancor, medo. Diga-me, por que você está aqui hoje?
– Para fazer novas amizades, é claro. Um pouco de vida social entre meus colegas de Baralho. E você?
– Eu estou duelando contigo. Tentando fazer com que algo aflore. Algo que você nega.
– Não foi o que eu perguntei, Nick.
Dylan atacou novamente, dessa vez com um Dez de Copas. Usava cartas altas para minar as resistências do oponente o mais rápido possível. E era muito bem treinado nas táticas do duelo, seus ataques descrevendo trajetórias imprevisíveis e crescendo em poder a cada desvio calculado. Não blefava contra Nicholas, não porque não soubesse. Sua forma de respeitar o outro era não blefando: todos os seus movimentos eram reais. Dolorosamente reais para Nicholas.
– Você é bom. Embora a ideia de gastar todas as cartas altas logo no início da batalha seja uma das técnicas mais primitivas que existem.
– É eficaz há séculos. Quando quiser desistir, fique à vontade.
– Você disse que queria conversar comigo. É exatamente o que estamos fazendo.
– Não. Não estamos. Você não disse quase nada até agora. Parece um mau ator representando um mau papel.
– Estou querendo que você mesmo diga, Dylan. Ou sinta.
– O quê?
Mentia que estava tudo bem, mas sentia algo fervilhando dentro de si. Estar em uma Esfera nunca era uma experiência fácil. Por isso insistira em conhecer todas como a palma da mão. Achou que a familiaridade lhe traria conforto e se enganara.
– Você não superou o que passou. Você acha que superou. Mas ainda está aí: o pânico e a raiva, escondidos debaixo de uma capa de cineasta bem-sucedido.
– Eu tenho uma vida melhor do que a que eu tinha antes.
– Sim. Está claro isso. Mas não foi uma escolha sua abandonar a vida anterior. Foi um choque bastante violento, eu diria.
– Já faz muito tempo…
Dylan usou um Sete de Espadas. Nicholas não tinha como superar aquele ataque e viu o fluxo de destruição se aproximando. Dylan gesticulou a sequência exata necessária para ativar uma das mais mortais técnicas, chamada de vários nomes mas comumente conhecida como Espada Espiritual. O nome não correspondia aos seus efeitos: realizada com perfeição, a técnica era capaz de dobrar o dano produzido, depois que o ataque atravessava toda as defesas do oponente. A violência do golpe emudeceu Nicholas dessa vez. Ele descobria a extensão do treinamento de seu oponente e já percebia que aquilo que aprendera com Pharad seria insuficiente. Para sua sorte a Espada Espiritual só podia ser usada uma única vez por oponente. Mas ainda assim era um combate de final claro e curto.
– Eu não tenho mais qualquer vínculo com aquele passado, Nick. Eu sou outra pessoa agora, tenho minha carreira, minha esposa e meus amigos. Por que eu estaria atado a algo que só me causa dor e tristeza? A vida é alegria. A vida está no beijo lançado no ar, está no barulho do filme rodando no projetor, está em dividir uma pizza com gente boa, nas linhas de um bom roteiro. O problema de todos vocês é ficar remoendo o que já foi, fantasmas de si mesmos se assombrando. Diga-me: por que você parece um recruta tenso? É uma opção sua ou um trauma de guerra? Lembre-se de que Santos não mentem.
– Ambos.
– Então não me venha com lições de vida. Escute o meu conselho: viva. Respire, coma, beba, durma, faça amor, vá ao banheiro. Faça tudo isso que eu não posso e aproveite a beleza fácil que está ao seu alcance.
– Eu aproveito, amigo. Eu aproveito. Mas e você? Será que aquilo que você afirma ter basta para você? Será que no íntimo você não gostaria de ter mais? A pergunta é: até que ponto você iria para ter aquilo que lhe foi tirado?
Era uma tática para desconcentrá-lo? Dylan também era treinado em concentração. Mas, então, por que parecia funcionar?
– Certas coisas não voltam mais. Essa foi a primeira coisa que me ensinaram na Índia.
– E você não odeia que elas não voltem mais? Você não odeia que tenha que ser difícil estar alegre o tempo todo? Como você tolera o fato da alegria ser tão difícil para você? Você não gostaria de abraçar Jennifer pelo menos uma vez?
– Deixe ela fora disso!
Dylan tinha um Dez de Paus guardado e o usou. Potencializado pela Esfera de Terra, aquela carta era praticamente um mítico Doze de Paus. Ele não gastara justo sua carta mais poderosa até aquele momento, estava reservando. Nicholas testemunhou o turbilhão se formando a partir das cinzas da carta e se dirigindo para ele em uma linha quase reta. Sem táticas, sem técnicas, seria a fúria do poder puro atingindo sua alma desguarnecida. Mas o Santo também tinha seu truque escondido. O intervalo de tempo entre a vitória do ataque e a distribuição do dano podia ser alongado infinitamente para que ambos manipulassem a lesão. Se antes Dylan havia se valido disso para ativar sua Espada, agora Nicholas evocava a técnica do Escudo. Ele concentrava todos os seus pensamentos no simples ato de se proteger, conjurando assim um Escudo Metafórico ao redor de si mesmo, impenetrável. O ataque vitorioso de Dylan resvalou para os lados, sem efeito algum. A defesa era passageira e também só podia ser realizada uma vez por Duelo.
– Estou pronto para desistir, senhor Dylan Carmichael. Declaro você vitorioso.
O olhar de Nicholas era triste. E Dylan sabia que não era por ter perdido a luta, mas por outra coisa.

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