Sutterville Dream ficava situada tão distante de Manchester e dos vapores urbanos que um observador desavisado poderia se imaginar perdido no meio do campo e diante de uma visão. Os lendários jardins em volta da mansão pareciam ter sido transplantados integralmente do Éden. E, conhecendo Pharad, talvez se acreditasse nesta hipótese.
Mas a casa, como não poderia deixar de ser, escondia seus próprios segredos. Era vaidosa. Fora construída por um arquiteto Carteador conhecido como Walter Sutterville, na época em que a Inglaterra era um Império orgulhoso. Seus primeiros ocupantes foram os Coltrane. Eric Coltrane, intrépido comandante a serviço da Marinha de Sua Majestade, reuniu dentro da sua mansão artefatos curiosos de toda a parte do mundo. Homem frio, nunca se intimidou diante das histórias que contaram sobre Walter Sutterville e seus estranhos projetos arquitetônicos.
Estudiosos da obra de Sutterville conseguiram identificar cinco construções bastante peculiares espalhadas pelo interior da Inglaterra, formando um padrão geométrico inacabado. As poucas plantas restantes indicam uma fixação do arquiteto por curvas e espirais, presentes tanto em detalhes menores da decoração (que ele também insistia em administrar) até a própria disposição dos aposentos. Uma das construções, uma ponte, desabou após uma tempestade sem precedentes no condado de Norfolk. Outras duas, uma mansão nos arredores de Liverpool e a casa de um juiz em Londres se incendiaram na mesma noite, por razões não determinadas. Sutterville foi encontrado boiando no rio Tâmisa, cinco dias depois.
E Eric Coltrane terminou seus dias na mais completa insânia, após seus parentes terem se suicidado um a um. O povo não parava de contar sobre sombras que se moviam nos jardins da casa e sobre os gritos ouvidos nas madrugadas antes dos dias santos. Durante décadas o lugar ficou fechado, cada aposento atulhado de objetos exóticos que ninguém ousava tocar.
Quando Sutterville Dream foi reaberta na virada do século XIX por Simon Griffith, a maioria de seus guardados foi vendida por um alto preço dentro do mercado negro da Magia. Embora tenha enriquecido às custas da Mansão, Simon não permaneceu mais que seis meses dentro dela e no ano seguinte perderia toda a sua fortuna e o documento de posse para um Demônio, conhecido apenas como Anel.
Pharad destruiria Anel décadas mais tarde, durante uma batalha em Casablanca. Depois da Guerra da Invasão, ele ingressou no Concílio dos Cinco e tomou posse de Sutterville Dream. O lugar vem sendo seu refúgio espiritual desde então.
Seus ocasionais convidados já viram muitas coisas bizarras acontecendo lá dentro. Coisas inexplicáveis. Citam, por exemplo, que a casa é perceptivelmente maior por dentro do que por fora, e não raramente foram avistados enigmáticos e silenciosos intrusos perambulando pelo jardim. Dizem as más-línguas que uma moça de má reputação foi convidada a entrar em 1977. No entanto nunca saiu.
Mas o toque de Pharad estava em cada detalhe. Para seus amigos, havia requinte. Havia poesia. E também o mistério.

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