Melanie e Alekssandri se evitaram por um bom tempo depois da separação, enquanto subterraneamente e, na maioria das vezes, unilateralmente, eles tentavam recomeçar o romance. Naquela noite, eles estavam bastante empenhados em serem ranzinzas um com o outro. Eu tentava não ficar sozinho com ela, para evitar o constrangimento doloroso e juvenil de uma paixão não-correspondida. Mas quando eu virava para a esquerda, Melanie estava lá desviando os olhos; e quando eu virava para a direita esbarrava com Lim Iakeda e seu sorriso-gioconda. Timothy e Francine dançavam em ritmo lento, enlaçados em poesia, quer estivesse tocando 4Non Blondes ou Pet Shop Boys. Era a festa de aniversário de Barnhard Rémy e todos iam bem na faculdade.
Alekssandri circulava pela festa com um copo de cerveja esquentando em sua mão, fingindo que bebia. Para ele, a maturidade era um colarinho evanescente e uma pose calculada. Melanie ia mais longe e realmente tomava uns goles de cerveja, mas nunca passando do segundo copo. Lim era radicalmente straight, ainda que não conhecesse o significado da palavra, e não consumia álcool, nicotina ou qualquer fármaco mais forte que Alka-Seltzer. Seu vício, sabíamos eu e Barnhard, era bem diferente. Tim e Francine dividiam tudo: cigarros, uísque, estrofes e críticas ácidas a respeito de tudo e de todos. Quanto a mim, acho que já disse o que podia dizer sobre esse assunto.
As festas de Barnhard serviam (e ainda devem servir) para perceber as alterações em nosso universo. Independentemente de Melanie e Alekssandri não estarem se olhando simultaneamente, independentemente de eu fugir de Lim com um AA foge da garrafa, a mudança mais significativa era o sorriso na face de Darkdream.
Timothy vivia equilibrado sobre uma navalha, de um lado a rigidez míope de uma educação yuppie, choques constantes com familiares, professores e colegas propagadores do evangelho seja-feliz-e-durma de Sodoma. Do outro lado, um promissor futuro onde ele seria um membro do trinômio Família, Igreja e Trabalho. Caminhar naquela navalha entre o que se foi quando criança e aquilo que querem que se seja quando adulto era uma condição básica para pertencer ao Círculo Interno. E, naquela noite, Tim e Francine valsavam em cima do fio, alheios aos desatinos que refletiam na lâmina. Quem olhasse poderia pensar que os dois estivessem namorando, mas não era verdade. Eles não seguiam regras, não trocavam flores ou crises de ciúmes. Sua empatia era mais profunda: eram eles contra o mundo e estavam vencendo. Beijos e abraços eram uma conseqüência.
Até aquele momento, o meu padrão de Amor Perfeito fora Melanie e Alekssandri. Mas eu já conhecia o final e, por mais que coração murmurasse o nome de Melanie na época, eu queria ser com ela como Francine e Tim eram um com o outro. Mas Melanie não estava disposta a dançar sobre as cinzas da cidade comigo ou qualquer outra pessoa. E talvez eu continuasse batendo na porta de Melanie por quatro anos consecutivos como fizera com Lim, esmagando minha face e minha alma no chão a seus pés, confundindo meio-sorrisos com felicidade, esperando transformá-la em minha Francine ou em minha Melanie-de-Alekssandri.
Já estava disposto a mandar minha auto-estima para uma viagem sem volta e me aproximar de Melanie para oferecer meu amor uma segunda vez, quando Francine resolveu simular uma cerimônia ouija. Ela pegou uma bandeja de papelão e escreveu as palavras “SIM” e “NÃO” com hidrocor vermelho e negro. Depois arranjou um copo de cristal do bar da família Rémy e se trancou no banheiro com Melanie e Alekssandri. Eu vira Eugene fazer o copo responder perguntas três ou quatro vezes, quando ninguém tinha algo para dizer ou para ouvir nas noites no Sandman. Não era exatamente ouija, mas funcionara para prever os resultados do Oscar e também servia para tirar o sono por uns dias, quando o copo decidia não cooperar.
Melanie e Alekssandri ficaram ali dentro por muito tempo, enquanto a festa ia se esvaziando e as pessoas se cansavam de esperar uma oportunidade de participar do show ou de usar o banheiro. Timothy me garantiu que Francine sabia o que estava fazendo, embora ele fosse (e eu também seja) incapaz de explicar como o copo se movia até as respostas. Eu só podia imaginar que verdades eles estavam descobrindo. E, quando os dois saíram, foi impossível arrancar-lhes qualquer comentários sobre a experiência, embora eu percebesse que as portas da Magia estariam permanentemente fechadas para eles e que eles seriam mais felizes assim. Francine me contou que eles gostaram, de um modo geral, das respostas. “Entretanto…” e sorriu.
Pela porta entreaberta do banheiro escapava um forte cheiro de cigarro misturado com incenso de sândalo. Francine chamou Timothy e Lim e trancou-se novamente, não antes de me lançar um beijo e um sorriso furtivo do tipo “você é o próximo, Franz-meu-velho”.
Melanie aproveitou para se despedir do aniversariante e ir embora, sem maiores explicações, mas Alekssandri ficou por ali, largado em uma poltrona perto das caixas de som e ouvindo Kenny G. Eu imaginava que impacto eu faria nele se lhe contasse as coisas que eu sentia por Melanie e ficava visualizando sua cara de espanto diante de cada pequeno segredo que ela me contara, das confissões noturnas quando ela era capaz de dizer qualquer bobagem para evitar responder aos meus olhares. Mas, nessas horas, eu lembrava do quanto ele deveria saber a respeito dela que eu não sabia, desejos obscuros que nunca me seriam partilhados, e então eu me sentia um tolo. Eles haviam formado uma unidade e havia lugares onde ninguém mais poderia ir novamente.
Minha mente estava carregada de fatalismos fim-de-festa e não queria gastar o que ainda me restava de sanidade com um copo mal-assombrado deslizando sobre uma bandeja de salgadinhos. Mas a verdadeira Magia flui independente da nossa vontade e tem um tempo certo para terminar. Ouvimos um grito, o som de vidro se quebrando e logo em seguida estava tudo predestinado: Timothy saindo do banheiro e indo embora tão rápido que seu rosto irado foi apenas uma mancha borrada, Lim chorando sentada no vaso sanitário e Francine com as mãos cortadas e vários fragmentos do copo quebrado enterrados na carne.
Removi Lim do banheiro e me tranquei com Francine. Lá fora, vozes confusas e batidas na porta. O copo se espatifara em todas as direções. Francine me abraçou com sangue escorrendo por entre seus dedos e me disse que a Magia não era boa nem má, mas nós determinávamos nossos próprios caminhos e muitas vezes chegávamos aonde não queríamos estar. Timothy perguntara quem iria vencer: ele ou Sodoma?

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