Oito da manhã. Eu devia estar na minha aula de Teoria Comportamental, mas, por algum motivo que agora não me vem à cabeça, eu estou deitado no sofá do apartamento de Barnhard olhando para os anéis de fumaça que escapam de minha boca. Também não sei qual é a marca deste cigarro, mas acho que gosto dele.
Barnhard, o Otimista, fuma o dobro do que eu fumo e já trancou a Faculdade. Pelo menos ele não se culpa mais por faltar às aulas. É bom estar com pessoas que estão um degrau evolucionário a sua frente.
A TV ligada exibe desenhos animados sem som. Na vitrola está rolando alguma coisa de Bob Dylan (que eu detesto, mas Barnhard me disse que era isso ou o silêncio). Ele prefere vinil ao CD.
Conversamos sobre como o tempo voa. Eu digo que quando menos se percebe a adolescência acaba e não resta mais nada. Ele responde:
– O que você queria? Uma medalha? Um Certificado de Maturidade para colar na parede? Agora é cair na vida.
Eu lhe pergunto o que significa cair na vida, realmente.
– Ter um emprego confortável, um salário adequado, uma casa para morar, um carro na garagem, uma esposa adorável e, talvez, filhos. Votar na direita, reclamar do governo, sexo uma vez por semana, visitar os pais e, talvez, viajar. Conta no banco, crediário, laptop. Seguro de Vida, burnout, assaltos.
Eu lhe digo que falta alguma coisa.
– Tevê a cabo?

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